Seres de Sonho e Pesadelo

Ao longo do seu caminho, Pelume encontrará muitas criaturas capazes de encantar e de deixar qualquer um de cabelos em pé. Venha conhecer um pouco desses personagens maravilhosos, que povoam a imaginação dos povos do Velho Sul ao Velho Norte. faltou algum que você encontrou nos livros mas não na lista? Quer saber mais sobre ele? Mande uma mensagem para mim no contato@porteiradafantasia.com e eu o colocarei nesta lista de maravilhosas assombrações ameríndias.


Mwono

O mais novo desafeto de Pelume aparece no conto “A Caverna de Gelo“, veiculado pela Trasgo nº 14, uma revista digital muito boa, destinada à contos de Fantasia e Ficção-Científica. O relato, na verdade, é um prólogo as aventuras do menino, ou seja, cronologicamente falando é anterior às aventuras vividas em “Os Sóis da América“, embora tenha sido escrito no final do ano passado.

Tive de procurar bastante por esse sujeito aí, o Mwono. Eu sabia que devia existir uma criatura ligada aos glaciares da Patagônia, mas ainda assim demorei um bocado para encontrar “alguém”. Graças à Internet, descobri esse personagem de arrepiar. Há pouquíssima informação a respeito dele. Ilustrações, encontrei duas, pura e exclusivamente, porque não há lembrança da forma de Mwono (suponho que ninguém tenha sobrevivmwonoido ao encontro com ele para contar como foi). Sabe-se que ele está associado às geleiras e à movimentação dos glaciares. Ele também pode ser encontrado no alto das montanhas geladas, onde há geleiras e avalanches. De fato, Mwono tem como característica principal o som: ele é o som do vento no alto dos picos e o som das geleiras em movimento.  A típica assombração que ninguém quer por perto, ainda mais em um lugar tão ermo, lindo e perigoso quanto um glaciar.

A ilustração ao lado é a minha concepção de como poderia ser Mwono, se alguém pudesse contar. Será que Pelume aprovaria?


Pelume

Cópia de furufuhué e pelume

Pelume e Furufuhué, por Fabiana Boff

Seu nome é uma contração de “pé no lume”, ou seja, “pé no fogo”. Mas esse não é o nome de nascença dele. Seu nome é “Duas Pernas”.

Pelume é um doce de menino. Cheio de convicções, disposto a qualquer coisa para prová-las. Tudo é novo para ele. Tudo é maravilhoso.

Apesar de todos os personagens terem nomes baseados nas etnias de origem (o nome de Misqui é mapuche, um dos povos que habitavam uma zona da Patagônia e que disseminou a história de Elelín, e o de Nimbó é guarani), para Pelume, reservei essa corruptela do português. Peço desculpas, mas não encontrei referências ao idioma falado entre os primeiros habitantes da Terra do Fogo. Mas, ao mesmo tempo, a tribo de Pelume, em particular, não é, exatamente, uma tribo tradicional da Terra do Fogo. Eles representam a todos nós, americanos, que perdemos a referência à nossa cultura de origem, diante de outras culturas. Assim, também perdemos nossa identidade. E também deixamos de olhar ao nosso redor, e de apreciar e valorizar o que é nosso. E que não é apenas nosso, mas o que somos, exatamente como nos lembrava Tolkien em “Sobre Histórias de Fadas“, a famosa conferência que ele proferiu em 1938 e cuja absoluta convicção estava em cada entrelinha de “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis“.

Não é à toa que eu o cito no início da saga.

Os Sóis da América é o meu “O Senhor dos Anéis” (mas as iniciais ficaram por conta do subconsciente, tá?)


Mísqui

Eu gosto muito dessa personagem. Mísqui, em mapuche, significa “mel” e de uma certa forma, é isso mesmo o que a companheira de viagem de Pelume é: seu cabelo é louro, ela é doce e também é forte. Tudo o que ela quer é ver o mundo, mas também está engajada na jornada do Menino das Histórias. Já sei que haverá várias críticas por uma das protagonistas ser loura (e logo eu, que não acredito em estereótipos), mas neste caso, ela está justificada. Mísqui é uma habitante de Elelín, a Cidade dos Césares, e a tradição reza que as pessoas, lá, são louras.

 

Ao longo da viagem, Misqui vai conquistar o coração de mais de um personagem. Corajosa, independente, bonita, e boa amiga. Espero que vocês também a curtam.

 

O retratinho dela, que você está vendo aí em cima, não é criação de Fabiana Girotto Boff. Eu o criei através de um programa da internet (que eu não desenho nada, você já sabe, né?). É quase assim que eu a imagino.


Nimbó

A jornada de Pelume vai lhe dar o seu melhor amigo: Nimbó. Nimbó representa o índio do pampa, charruas, guaranis e outros mais. Ele vive, inicialmente, na Colônia do Sacramento, um dos lugares mais representativos da história da bacia do Prata. Habilidoso com uma lança, facão ou boleadeiras, destro na arte de conduzir animais, é o componente dos Três do Sul que não gosta de magia, e detesta segurar o Nalladigua. Seu nome significa “corda”, em tupi-guarani, e é exatamente isso o que ele é: uma corda firme, estendida sobre o abismo da aventura. Corajoso, forte e bondoso, ele vai aturar as manias de Pelume com muito mais paciência do que Misqui. Como diz Furufuhué “nele manda só o coração”. Coração de guerreiro, guerreiro enamorado, e amigo fiel.


 

Furufuhué 

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Furufuhué, de Fabiana Boff

Permitam-me apresentar o pássaro da capa da primeira edição de “O Nalladigua“. Pois o título do livro não é o nome da portentosa criatura que você pode ver no post que faz referência à capa. Conheci Furufuhué na http://www.diccionariodemitos.com.ar , ainda os anos 90, quando morava na Espanha. Como você pode ver “Os Sóis da América” não foi fruto de uma ideia que eu simplesmente desenvolvi, mas de leituras que fui tendo ao longo da minha vida. De acordo com o que fui aprendendo, Furufuhué é uma criatura mitológica ligada ao vento, e e tão poderoso que as pessoas não conseguem se manter pé, quando ele sopra. Se manifesta na forma de um pássaro coberto de escamas brilhantes, e só pode ser visto contra o Sol. Circula na região meridional da Argentina e do Chile. Em “Os Sóis da América” ele é o vento que surge na forma de um pássaro no começo da história, para levar Pelume no começo de sua jornada. Sendo o vento, tem muitos nomes e muitas representações, normalmente associadas à aves. Esta é apenas uma delas e a minha frase predileta para ele é “não queira me ver dar meia volta, e muito menos volta inteira!” Toda vez que sopra o vento entra pelas janelas e espalha papéis, derruba coisa e levanta a saia dos vestidos, a gente comenta que Furufuhué está fazendo estripulias!


 

O Machí

“Machí”, na verdade, não é o nome de “batismo” do personagem. Não vale como um “Pedro” ou um “João”, por exemplo. Machí é um tipo de bruxo. “Médico y hechicero“, ensina o dicionário de assombrações da Cocoweb que foi, muitas vezes, o meu farol neste mundo repleto de criaturas assustadoras, que é a América. Eram conselheiros dos chefes das tribos locais de Chiloé, uma ilha situada no sul da costa do Chile, tratavam da saúde das pessoas e tinham uma vida solitária, vivendo em cavernas durante alguns períodos do ano. Também faziam a intermediação entre homens e espíritos.

Os machís se organizavam em uma ordem secreta chamada “Recta Província“, e o espaço geográfico em que viviam era dividido em sete Distritos, dos quais Quincaví era o mais importante. Os machí tinham vários poderes: eram eles que “semeavam” os camahuetos, podiam criar um invunche, e usavam um colete feito com a pele de um morto. Quando o vestia, o colete podia se colorir de uma tênue luz azul e fazer o bruxo voar. Além disso, tinham muitas outras artimanhas e não ficavam nada a dever a nenhum feiticeiro de barba longa e chapéu pontudo. Eram terríveis. Existem registros históricos de sua existência enquanto agentes culturais e políticos, até 1880, quando houve um julgamento em Chiloé, durante o qual, várias pessoas foram presas, acusadas de pertencer à Recta Província. E em pleno Séc. XXI, a crença na existência destes fantásticos personagens ainda existe, viva e pulsante, em Chiloé.

Um verbete muito bom é o da Wikipédia e você pode acessar clicando AQUI. Também temos uma lista excelente na Ares Cronidas, de onde veio a ilustração, e que você acessa clicando AQUI.


Invunche

O invunche é o criado do Machí, mas não apenas do Machí de Os Sóis da América, mas de todo o qualquer feiticeiro da Ilha de Chiloé. É uma criatura completamente deforme, que anda com três membros: as mãos e um pé. A perna direita, completamente retorcida, passa por cima das costas e o pé descansa no ombro esquerdo da criatura. É de arrepiar.

Dizem que a principal função do invunvhe é guardar a caverna que também é refúgio do Machí. É sua função abrir e fechar a pedra que dá passagem ao interior da gruta. Ele não fala, apenas emite um grunhido, e se alimenta de carne humana, que os machís trazem para eles, desde os cemitérios, brrr.

Contudo, os invunches são seres humanos. De acordo com as lendas o invunche é “feito” por um machí. O feiticeiro rouba uma criança e a submete a um terrível tratamento, que termina por transformá-la na criatura, que não teria capacidade de grandes raciocínios. Em outras lendas que pesquisei, o invunche é, na verdade, um machí que falhou na iniciação como feiticeiro. Neste último caso ele seria um tipo muito inteligente, que demonstraria no corpo o duro preço de falhar na hora de se preparar para ser um Machí de verdade.


Piguchén

Ou Peuchén, Pihuchén, Pihuychén, Pihuichén, Piwuchén ou Piguchén é mais uma criatura do rico cenário do imaginário do Chile. Essa criatura assustadora, pode se apresentar de diferentes formas, embora a mais “corriqueira” seja a de uma cobra voadora. Mas pode ser um peixe, sapo, morcego e até gente, entre outros muitos animais, ou, ainda, uma mistura deles todos. Seu corpo é coberto de vegetação, tanto de grama quanto de arbustos. Viveria nas matas, e é tão grande que pode fazer afundar um barco, já que vive perto de lagos e rios. Também tem algo de chupa-cabras, já que o piguchén viveria de sugar o sangue das ovelhas. Um autêntico vampiro sul-americano. Dizem que apenas os machís de Chiloé podem matá-los. E em alguns lugares que pesquisei, diziam que o Piguchén podia servir de animal de transporte para os machís. Brrr!


Destelho

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Destelho, de Fabiana Boff

Destelho é uma espécie muito especial de criatura: ele é um camahueto. Os camahuetos são seres fantásticos que provém das lendas da ilha de Chiloé, no Chile. Se você puser o verbete no Google, encontrará inúmeras referências, incluindo ilustrações e desenhos rupestres (!). Também há um camahueto no famoso mapa de Piri Reis, datado do século XVI. Pesquisando criaturas fantásticas para a saga, em diferentes fontes, terminei descobrindo uma criatura que me deixou de boca aberta: os camahuetos. A primeira referência veio do Dicionário de Mitologia, de Hernâni Donato, aliás, uma autêntica mina de referências muito diferentes aos tradicionais Sacis e Curupiras. A minha edição é da Cultrix.

Os camahuetos são os unicórnios americanos. São identificados como um novilho muito bonito, com uma única aspa dourada. São encontrados perto de rios e fontes e nascem de um pedaço do próprio chifre, enterrado por 25 anos e nascido pela oração de um bruxo chillota. Assim, diz-se que os bruxos “semeiam” o camahueto. Como o unicórnio europeu, o chifre desta maravilhosa criatura é um excelente e indispensável elemento para a realização de feitiços e da farmácia destes poderosos magos. É apontado em alguns lugares, como panaceia universal e antídoto contra qualquer veneno.

O “problema” dos camahuetos é que eles não são completamente bonzinhos. Quando emergem da lama onde foram “semeados”, buscam imediatamente o mar, para encontrar a Vaca Marinha. Tornam-se violentos, em sua jornada, destruindo qualquer coisa que se interponha entre eles e seu objetivo. A única maneira de pará-lo é laçá-lo com algas e cortar-lhe o corno fora – exatamente o objetivo de um feiticeiro que o tenha “semeado”, dada a importância mágica do corno.

“Destelho”, o nome de um dos mais queridos companheiros de viagem de Pelume, vem da palavra castelhana “destello“, que significa “brilho, resplendor”.


Fiúra

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Hoje eu gostaria de apresentar para vocês uma assombração hiper-super charmosa.

Trata-se da Fiúra, medonha habitante dos ermos Patagônicos. Dizem que tem pés enormes, braços fortes e não é muito alta – meio metro de altura, no máximo. Mas é terrível. Diz-se que tem uma longa cabeleira que penteia com um pente de prata ou cristal. Em alguns lugares, ela canta suavemente, para atrair suas vítimas. Em todas as histórias, vive em um lugar pantanoso.Hoje eu gostaria de apresentar para vocês uma assombração hiper-super charmosa.

Embora tudo isso leve um brasileiro à vinculá-la imediatamente com a Iara (figura romântica, aliás, que, ensina Luis da Câmara Cascudo, não é invenção folclórica, surge, provavelmente, a partir do ciclo iniciado por Gonçalves Dias, no século XIX), as semelhanças terminam aí: a Fiúra tem uma feição repugnante e, detalhe, exalar um odor fétido, asqueroso!


Nhanderiquei

Para mim, este é um dos personagens mais bacanas que Pelume conhece na Colônia do Sacramento. Nhanderiquei é um personagem mítico, que faz parte do universo de mitos da etnia apapocuva, que é um dos ramos do povo Guarani. Neste mito, os apapocuva contam que Nhanderuvuçu, o deus supremo, tinha dois filhos gêmeos: Nhanderiquei, o primogênito, e Tiviri, o segundo gêmeo. O primeiro é o herói solar – de parte do seu corpo, Nhanderuvuçu faz o Sol, que é reflexo de sua sabedoria, e é Nhanderiquei quem cria as frutas, para alimentar seu irmão, depois da morte da mãe de ambos. O segundo é herói inventor – Tiviri é o criador dos artefatos usados pelo homem, incluindo o arco e a flecha. A Lua é criada do corpo de Tiviri. Assim, Nhanderiquei é o Sol, a luz, e rege o dia, enquanto Tiviri é a Lua, a escuridão e rege a noite.

O interessante aparece quando a gente lê um pouco da cultura guarani. Sabe-se que essa cultura não apreciava o nascimento de gêmeos, considerando o acontecimento algo malfazejo e aziago. Por outro lado, apesar de não ter encontrado muitos mitos dos índios brasileiros que ofereçam  os gêmeos como elemento narrativo, os Kamaiurá também têm um par de gêmeos como origem do Sol e da Lua, como se verá mais adiante.

Aqui, também, há uma polêmica. Se você colocar no Google a palavra “Nhanderuvuçu”, o buscador vai remeter você para uma página do Wikipédia que diz que essa divindade nunca existiu. Bem, devo dizer que a base dessas informações eu recolhi no Dicionário de Mitologia, de Hernâni Donato, editado pela Cultrix (a primeira edição é de 1973, portanto, antes da popularização da rede) com uma grafia ligeiramente diferente (“Nhanderykey” e “Nyanderuvusu“, que dificultam, ainda mais, a leitura). Depois trabalhei o personagem, cruzando-o com mitos guaranis da Criação, recolhidos na rede e em outras fontes.

Em todo o caso, lembro que Os Sóis da América não é um tratado de antropologia – é apenas uma saga que busca despertar em você, leitor, a vontade de conhecer mais o folclore e a cultura de nosso continente.


Mbyja’ Ko’e

Se despede o pó de estrelas da noite.

Se despede Mbyjá’ Ko’e, a derradeira,

A sábia, a bela, a verdadeira.

A madrugada já seduz!

Ó, vem, Coaracy, mãe da luz!  

Esta não é, exatamente, uma personagem atuante em Os Sóis da América. Mas ela irá acompanhar a viagem de Pelume até o final, morando diretamente no coração do menino. Mbyja’Ko’e, é um dos nomes do planeta Vênus, na astronomia guarani. Os guaranis não identificavam a estrela matutina e a vespertina como o mesmo corpo celeste, e lhe davam dois nomes diferentes. Mbyja’Ko’e é o nome que o planeta recebe pela manhã. Ela seria fruto do espírito de Porãsy, uma belíssima índia, cuja história trágica conta a origem da constelação das Plêiades, que os guaranis chamavam de Eichú, o Vespeiro. Porãsy, teria se sacrificado para que os índios pudessem acabar com os sete filhos de Taú e Kerená, sete monstros que infernizavam a vida dos índios.

Em todo o caso Mbyja’Ko’e é descrita como uma deusa muito bonita e de grande força física, destinada a iluminar a aurora, marcar o nascer do sol e orientar as pessoas que viajam de madrugada. E é essa fonte de esperança que irá acompanhar Pelume e seus amigos, até mesmo quando tudo parecer perdido.


Coaracy

Co-ara-cy“, em tupi-guarani significa, literalmente, “mãe deste tempo”. Sem embargo, a palavra é pré-nome masculino. Deve ser por causa da compreensão da partícula “cy“, que faz parte de muitas outras palavras como Jacy, a Lua. “Cy“, a “mãe”, talvez fosse melhor traduzido como “fonte”, origem. Os guaranis não entendiam nada sem uma fonte, sem uma “mãe” que lhe desse origem. Assim, a luz do dia, e o próprio dia, era “filho” do Sol que se levantava todas as manhãs, Coaracy.

Foi por essa razão que eu tratei Coaracy como entidade feminina na poesia que Nhanderiquei diz sobre as muralhas da Colônia do Sacramento, ao “chamar” o alvorecer.

Coaracy é senhor de tudo o que acontece no dia, e seu domínio se estende sobre criaturas míticas como Anhanga (protetor da caça), Caapora (protetor da mata), Guirapuru (dos pássaros) ou Uauiará (dos peixes). Jacy, a Lua, seria sua esposa, mas há contos em que a Lua aparece como entidade masculina, como na lenda da Vitória Régia (embora, verdade seja dita, a lenda da Vitória Régia é amazônica e não, necessariamente, estendida às regiões onde esta planta não vinga).

Para os índios, o Sol também é um reflexo da sabedoria e da bondade de Deus, embora, de acordo com os estudiosos, não haja resquícios de uma adoração religiosa aos astros celestes.


Itinga

Eis aqui um grupo de personagem que serve de ligação para muita coisa.

A designação “itinga” (que vem do tupi-guarani e significa “i”, água, e “tinga”, branco, portanto, “água branca”) não existe no folclore brasileiro. Eu os criei quando escrevi “A Noite da Grande Magia Branca”, na década de 80. Minha protagonista, Teçaya, a maga dos cabelos prateados, terminava se transformando na líder de um grupo de amazonas fantasmas, que, elas sim, fazem parte do folclore da Lagoa dos Barros, no Rio Grande do Sul, Brasil. Eu queria designar os cavalos que as levam sobre as águas escuras da lagoa em noites de luar, e não a encontrei em lugar algum. Então eu recorri aos dicionários, fiz uma pesquisa e cheguei à essa palavra que designa os cavalos de Teçaya, do qual o principal é Branco-Prata.


Urutau

Personagem que aparece só de passagem em Os Sóis da América, o urutau é uma criatura do folclore gaúcho e brasileiro, conhecido por seu piado triste. Ave protegida nas matas brasileiras, também é conhecido como Mãe da Lua. Trata-se de um dos mestres do disfarce, tanto no campo, quando na floresta. Basta encontrar um tronco meio seco para se posicionar e… sumir na paisagem. De uma hora para a outra, o urutau parece se transformar de um pássaro em um galho – puro mimetismo desse animalzinho maravilhoso.

O Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luis da Câmara Cascudo, da ed. Itatiaia, o liga, invariavelmente, à histórias de amor. Uma das lendas conta que Nheambiú se apaixou por Quimbae. O amante morre e a índia se transforma na ave que, pelas noites, canta tristemente “meu amor, foi, foi, foi“. O urutau é tradicionalmente visto como uma ave de mau agouro, que traz más notícias, sempre pessimista. Por isso em O Nalladigua, é importante ouvir o que ele tem a dizer… mas talvez não seja necessário levar tudo ao pé da letra. Afinal, os pessimistas sempre pensam o pior de todas as situações…


Curupira

É um dos muitos gênios da mata sul-americana. Conhecido no Brasil, também aparece em outros países da América Latina, com nomes diferentes, como Curupi (Argentina), Máguere (Venezuela), Chudiachaque  (incas do Peru), etc. Sua forma mais tradicional é a de um anão de cabeleira cor de fogo, dentes verdes e pontiagudos e (o que realmente o distingue de todos os demais entes encantados) os pés virados para trás. O Curupira protege as florestas, avaliando o tronco das árvores que estão velhas, para ver quais as que estão à perigo de cair. Também observa a atividade dos caçadores e se eles caçam mais do que o necessário para consumo, o castigo que infringe é terrível: ou os enlouquece, ou os faz perder-se na floresta, vagando até morrer de fome. Mas sempre está disposto a negociar – se sua vítima oferecer-lhe fumo de boa qualidade.


Ahó-ahó

Esse é um autêntico pesadelo! Ahó-ahó é um monstro da mitologia tupi, digno de figurar na mais seleta antologia de monstros de todo o mundo. Normalmente ele “habita” a região missioneira e é descrito como “um grande animal, informe, escuro, pelame farto e veludoso.” Possui grandes garras e cheira muito mal.Tanto pode se parecer com um urso, quanto com uma ovelha (dependendo da região onde o mito é contado) e se alimenta, preferencialmente, dos desavisados que se perdem na floresta ou no campo. Dizem que a única maneira de escapar é subindo em uma palmeira, porque se você subir em outra árvore qualquer, Ahó-ahó, se não alcançar a copa, vai cavar as raízes da árvore, até ela cair e você ficar ao alcance de suas mandíbulas dele. Ele é um dos filhos de Taú de Karená, um dos Eichú, os sete irmãos monstruosos que ao morrer se transformaram na constelação das Plêiades.


Ipupiara

Embora a criatura aquática mais conhecida do nosso folclore seja a Iara, a bonita moça que penteia seus longos cabelos à beira de um ribeirão, cantando com uma voz melodiosa (isso não lembra, na realidade, a Fiúra?), dizem os folcloristas que esta figura, assim descrita, é invenção dos românticos do sec. XIX. O Brasil está prenhe de criaturas aquáticas, mas a maioria delas é monstruosa. Entre eles, estão os ipupiaras. Trata-se de criatura malignas, que habitam os cursos d’água e afogam as pessoas que por desventura caem em suas garras. Levam o coitado para o fundo, o afogam e depois devoram as pontas dos dedos, os olhos, o nariz e as partes genitais. Eles são a fonte folclórica do sec. XVI, de onde nascerão a Iara e o Boto, que têm fascinado os escritores e leitores de fantasia brasileira nos últimos anos. São criaturas bestiais e famintas, homens de olhos encovados ou mulheres de longos cabelos compridos, os nosso originais monstros dos rios.


A Flauta Condor

A Flauta de Nenhuma História, como diz Uturunku. É uma criação especial para a saga. Trata-se de uma quena, é a palavra quíchua para designar aquela flauta simples, que a gente chama de flauta doce. Apesar de muita gente achar que a flauta mais tradicional do mundo andino é a tem vários caninhos amarrados lado a lado, a “flauta de Pã”, não é assim. A quena é que o instrumento de sopro mais antigo e tradicional, e é por isso que ela está aqui para nos transportar ao mundo mágico de Pelume.


Kuntur

O Kuntur, ou o Condor, é um animal símbolo dos Andes e, dessa maneira, da parte sul da Espinha Branca. São muitas as lendas em torno deste maravilhoso animal, que pode chegar a medir 3 metros de envergadura, de uma ponta de asa até a outra. Os incas acreditavam que ele é o mensageiro dos deuses, e que jamais envelhece. Ao lado da serpente e do jaguar, o condor simbolizava três diferentes níveis: o subterrâneo, a Terra e o céu. Também acreditavam que era ele quem levava o sol nas costas, ao longo do dia, em sua trajetória pelo céu. Para os calchaquíes, ele é o pássaro que traz a tempestade em suas asas. Já os mapuches acreditavam que o condor é a reencarnação da alma de pessoas de grande nobreza e sabedoria e eram eles que diziam: “Não queiras te parecer ao condor, porque a cordilheira é alta“, para advertir as pessoas que se metiam em empreitadas além de suas forças (é o que diz Huilén à Misqui, quando Pelume visita a Cidade dos Césares). Já os tehuelches, o condor é sagrado, mas maligno, por ser uma ave carronheira. Elal, um dos seus personagens míticos, caçou um condor com uma flecha e arrancou as plumas de sua cabeça como castigo, porque a ave teria caçado crianças. Por isso, até hoje, a cabeça do condor é sem plumas.

Seu simbolismo até hoje é forte e ele está presente no escudo de armas de quatro países da América Latina: a Bolívia, o Chile, a Colômbia e o Equador, além de estar presente no escudo de armas da província de Mérida, na Venezuela.

Uma lenda incas, ainda diz que quando um condor sente que vai morrer, ele voa até o pico mais alto, fecha as asas e se deixa cair contra as pedras no fundo dos vales. Mas outra o transforma na fênix americana: alguma pessoas acreditam que quando o condor se sente velho e cansado, ele volta ao seu ninho onde renasce, fortalecido


Kuat e Iaê

Estes dois personagens fazem parte da cosmogonia kamaiurá, etnia que habita a região do Mato Grosso. Eles se transformam no Sol e na Lua, respectivamente, depois de receber dos pássaros o Dia. A lenda recontada dem A Flauta Condor é baseada nas pesquisas dos irmãos Villas Boas, sobretudo no livro “Xingu – Os índios, seus mitos“, da Ed. Kuarup. E vale ainda o destaque para “Xingu – Os contos do Tamoin“, também dos irmãos Villas Boas e pela Kurup. Além das histórias maravilhosas, ilustrações de tirar o fôlego!


Pombero (Karai Pyhare)

Eis ai um sujeito de péssima reputação e uma reputação bem grande. É o mais popular dos duendes de região guarani. É tão ruim tê-lo por perto, que o ideal é não citar seu nome em voz alta. Se for preciso falar seu nome, é recomendável fazê-lo em voz baixa e, como faz Nimbó, chamando-o de Karai Pyhare. Em A Flauta Condor, ele é descrito mais ou menos como é sua figura tradicional: alto, magro com um grande chapéu de palha. É o protetor dos pássaros, e é capaz de imitar qualquer um deles. Se pegar algum garoto caçando passarinhos, o maltrata até matá-lo, ou quase. Em algumas versões, chupa o sangue do coitado, e o deixa pendurado em uma árvore (é, nós também temos os nossos vampiros!). Também é acusado de violar moças. Mesmo assim, às vezes torna-se amigo de algumas pessoas, tornando-se uma espécie de protetor. Gosta de ovos frescos e mel. Se a pessoa quiser que ele não se aproxime de sua casa, precisa colocar um dente de alho em cada canto da moradia.


Huayra tata

Um dos muitos nomes que o vento vai recebendo ao longo da aventura. Neste caso, trata-se de um título provindo da cultura Inca e aimara. Era o “pai dos ventos” e companheiro da Pacha Mama. Era representado por uma figura humana de duas cabeças, enrolado em serpentes dos pés às cabeças. Estava associado aos ventos fortes e habitava o alto dos picos e os abismos dos Andes.

 


Amichú

“Gêmeos”, em quíchua. Em A Flauta Condor, amichú, é a forma como Uturunku se refere, respeitosamente, aos sobrinhos-netos do Inca, os herdeiros do trono.


O Nalladigua


Título do primeiro volume de “Os Sóis da América“, o Nalladigua só aparece em todo o seu esplendor na segunda parte do livro, quando Pelume e seus amigos chegam a um determinado ponto onde a árvore mítica original de fato estaria enraizada. O Nalladigua era um mito que fazia parte da cultura dos mocovíes. Eles acreditavam que essa árvore era tão imensa que seus galhos sustentavam o céu, e que as estrelas seriam suas flores e frutos. Os mocovíes acreditavam que quando alguém morria, sua alma podia subir pelo tronco e pelos galhos sagrados e passar a viver na Via-Láctea, pescando. Porém um dia, contam eles, Capiguara, o mal, transformou-se em uma velha e roeu o tronco, derrubando o Nalladigua. Assim, as almas dos mocovíes nunca mais puderam subir ao céu para pescar entre as estrelas.


Coquena

Um dos duendes da América Latina. De acordo com Adolfo Colombre em “Seres Mitológicos Argentinos” (Ed. Colhue), é a divindade protetora das vicunhas, llamas e guanacos, daí a exigência dele de que as crianças jamais façam mal a um desses animais, em A Flauta Condor. Usa calça de algodão, camisa simples e chapéu ou um gorro indígena. Dizem que ele é o dono das minas de prata e ouro e que à noite leva rebanhos carregados dos minerais preciosos, até o Sumaj Orco, o monte onde se localizam as ricas minas de Potosí. E que esses pacotes estão atados por víboras, no lugar de cordas…

Normalmente, encontrar o Coquena é sinal de azar, mas para os Três do Sul e os gêmeos, foi uma sorte. Ah, detalhe: em A Flauta Condor, as serpentes que o Coquena cita são algumas das espécies mais venenonsas e emblemáticas da região (os Campos de Caçada, lembrem, ficam na região do El Chaco, que abrange Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai). Diz ele: “Chhh, quietas, quietas, Arco Íris, Jararaca. Dona Cascavel Boicininga Cabeça de Guizo, guarde os dentes, aqui há gente boa, boa gente. Quieta Cruzeira, quieta Caiçara, Urutu, Machaqway, tanto silvo e não se vai. Quieta Coral, Surucucu, Boca de Sapo, quanto veneno, cuidado! Digam “ssss”, minhas meninas, digam “ssss”.” Olha elas aí:

Arco íris: não é venenosa. Mas é tão bonita que não resisti a colocá-la entre as demais. Observe que sob o flash da câmera, ela revela cintilações das cores do arco-íris. A foto é do site http://animais.culturamix.com

 

Jararaca: uma das mais venenosas do Brasil. Mantenha distância. Mas é um importante predador de roedores, como ratos, por exemplo. A foto é do site http://www.biologados.com.br

 

“Dona” Cascavel (Boicininga, Cabeça de Guizo): outra da turma do “mantenha distância”. É a cobra dos guizos, a que faz o barulhinho como um chocalho da ponta do rabo. Cada gomo do chocalho corresponde à uma troca de pele, e se costuma dizer que a cascavel troca de pele uma vez por ano. Assim, se poderia dizer que cada gomo do guizo de uma cascavel corresponde a um ano de vida dela, mais ou menos. Mas atenção: quando esta serpente sacode o guizo, é para avisar que você está perto demais, que ela está muito assustada e que vai se defender do jeito que sabe, ou seja picando você. Não chegue perto. Você pode admirar o bonito padrão das escamas dela de longe. E como a Jararaca, essa também controla a população de roedores, sobretudo ratos. “Boicininga” e “Cabeça de Guizo”, são alguns dos seus apelidos. A foto é do site http://www.efecade.com.br

 

Cruzeira: mais uma serpente conhecida. Além de um maravilhoso padrão que ajuda a ocultá-la no chão das matas e rochedos onde mora, alguns animais tem, no alto da cabeça, escamas que formam uma cruz, daí o seu nome. É outra das que é bom manter uma distância respeitável. A foto é do site http://www.cobrasbrasileiras.com.br

 

Caiçara: outro tipo de Jararaca.  A foto é do site http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br

 

Urutu: cresci aprendendo que o veneno da urutu é o mais terrível de todos. Se dizia, lá em casa “o veneno da cruzeira é terrível, mas o da urutu é pior”. No final, são a mesma cobra.

Machaqway: apesar de também não ser venenosa, não podia faltar nesta lista. Primeiro, porque ela ocorre por toda região do El Chaco. E depois porque ela é considerada a “protetora” das populações do campo. Isso porque a machaqway (no Brasil conhecida como “muçurana”) se alimenta das outras serpentes, sendo imune ao veneno de todas elas, menos ao veneno da cobra coral. Ou seja: onde há machaqway, não há outras cobras. Ela está em A Flauta Condor para proteger as crianças, sobretudo Nimbó. Só que ele não sabe disso… A foto é site http://www.serpientes-snakes.com.ar

 

Coral: cobra emblemática do Brasil. É de veneno poderosíssimo e pode matar uma pessoa em 24 horas. Detalhe, porém: ela só ataca seres humanos se achar que está sendo ameaçada. Então se você não mexer com ela, o mais provável é que ela não vai “mexer” com você. É uma serpente muito bonita, que foge à identificação costumeira das víboras (os manuais ensinam que as serpentes venenosas tem cabeça em forma de triângulo, e o corpo mais grosso que se afina subitamente na cauda. Como você pode ver, a coral mais parece uma mangueira colorida). Outra dificuldade é que a coral tem uma “prima”, a falsa-coral, que não tem veneno. Como ambas são muito parecidas, o melhor é não mexer com nenhuma delas. Aliás, para que, não é? Um animal maravilhoso como esse é para ser admirado em seu habitat e não para ser pego na mão! A foto é do site http://www.infoescola.com

 

Surucucu: uma das maiores e mais venenosas serpentes do mundo! Chega a medir 3,5 metros. A surucucu é responsável pela maioria das mortes por picada de cobra do Brasil, então não chegue perto. É um animal lindo, com uma função importantíssima de controle de roedores, e caça à noite. É muito agressiva. A foto é do site http://www.achetudoeregiao.com.br

 

Boca de sapo: mais um tipo de jararaca, e pode ser encontrado tanto no solo, quando nas árvores. Uma curiosidade deste animal é que seus filhotes nascem com um veneno ainda mais poderoso do que os adultos, ou seja, os filhotes são mais venenosos do que seus pais. Elas se alimentam de pequenos vertebrados e, como quase todas as demais citadas por Coquena, ocorre também na região central da América do Sul, incluindo Brasil, Bolívia e Paraguai. A foto é do site http://www.opantaneiro.com.br


Lagarto-tigre

Este post é praticamente um pedido de desculpas a esse fabuloso animal do imaginário da América. É que quando eu comecei a escrever o Os Sóis da América, meu material de pesquisa não tinha a mesma quantidade de livros de referência que tenho agora. Então alguns personagens ficaram muito aquém do que poderiam ser.

Pode parecer um tanto fora de lugar, um personagem que se chame “lagarto-tigre”, uma vez que na América não existem tigres. Há jaguares, onças, suçuaranas, pumas, linces, enfim, uma grande variedade de felinos, e inclusive alguns podem ser identificados por dois termos diferentes, como é o caso da onça e da suçuarana, que também são conhecidas como jaguar, mas nenhum deles é um tigre de pelo listrado. Porém os europeus que aqui chegaram, traziam consigo seu próprio vocabulário e “tigre” era um animal que eles conheciam da Ásia. Assim que, quando se depararam com o espetacular e assustador Teyú-Yaguar, o traduziram imediata e literalmente para “lagarto-tigre”, e o termo assim ficou.

O lagarto-tigre é um animal fabuloso que habita a região de Missiones e também surge no imaginário do Paraguai. De igual maneira ficou ligado a mítica região do Eldorado (veja o vocábulo na aba “Lugares de Sonho“). Ele é um lagarto com a cabeça de forma que lembra um cão, ou, ainda um lagarto de nada menos do que sete cabeças em forma de cão ou tigre, que vive nos rios e afunda as embarcações para poder devorar os homens que estão nelas.

Como eu não conhecia essa descrição – no livro de onde tirei a referência, ele aparecia apenas como o guardião do Eldorado – optei por transformá-lo em um dinossauro (talvez como uma referência inconsciente a “O Mundo Perdido“, o clássico de Arthur Conan Doyle). O que, francamente, não me parece uma encrenca tão simples assim. Contudo, quem sabe se um dia, para uma segunda edição do livro, o “simples” dinossauro que ameaça devorar Os Três do Sul e os Amichú, não se transforme numa autêntica “Hidra de Lerna” sul-americana? Valeria a pena.


Chuquichinchay

É uma maravilhosa divindade inca, ligada à constelação de Leão (para algumas fontes de pesquisa) ou uma única estrela (para outras). É Hernâni Donato quem, em seu Dicionário de Mitologia (Cultrix, São Paulo), afirma que Chuquichinchai era lembrado, também, como “o ar em movimento, para o camponês inca. Era representado como um tigre soprador” (como não há tigres na América, vale lembrar que a palavra “tigre” sempre se refere à suçuaranas (jaguares) ou onças). Diz ele: “Ainda hoje o homem andino acredita em um felino (qowa) que ronda os mananciais e em certos momentos, pela época das chuvas, sobe às nuvens e intervem na formação do granizo.” Nas páginas da web, Chuquichinchay aparece somente como estrela: é o jaguar de ouro, ou a onça arco-íris, que liga o céu e a terra. Uma criatura de múltiplos significados que vale a pena ser conhecida mais de perto.


Viracocha

Viracocha, ou Huiracocha, ou qualquer um dos muitos nomes que ele tem, é o grande deus da região andina dominada pelos incas. Tinha muitos apelidos: “O Homem do Céu”, “O Senhor”, “O Mestre do Mundo”. É uma deidade antiga que era o deus de culturas anteriores aos incas, sobretudo dos habitantes da região de Tiahuanaco. Ele teria criado o mundo, o Sol, a Lua, os Homens, tudo o que existe, enfim. Nômade, não teria uma morada fixa, e como companheiro tinha uma ave que conhecia o presente e o futuro, o Inti, normalmente representado como um colibri de ouro. Viracocha viajou muito pelo território andino, observando os homens para ver se eles se comportavam a sua altura e respeitavam suas leis. A lenda contada por uma das pedras de Marcahuasi à Pelume, em seu sonho, é uma versão condensada de outras, que contam como ele teria criado o mundo. Sua desaparição no oceano, transformando-se em espuma do mar, é apenas uma das muitas versões de sua partida. Até hoje, as pessoas que vivem na região andina se referem à ele com muito respeito.


Cobra Grande

Oba! Aqui está uma personagem que eu me puxei para criar. A Cobra Grande, ou Boiúna (Cobra Preta), é um dos mitos mais importantes de toda a região Amazônica. Está ligada ao mito de como apareceu a Noite, por exemplo (a Noite era uma coisa que a Cobra Grande tinha guardada no fundo do rio, dizem) e aparece numa série de outras histórias. Como entidade folclórica, é responsável por sulcos na floresta, que depois são tomados pelas águas, formando os igarapés; poderosa, afunda barcos, navios e engole homens. Quando está fora da água, os olhos são dois fachos de fogo e, como acontece em O Coração de Jade, essa maravilhosa criatura tem a possibilidade de se transformar em um navio encantado.

A ligação mais clara entre o bicho mítico e o bicho real, é a sucuri. Cobra aquática por natureza, esse incrível animal pode chegar à 10 metros, e o Marechal Cândido Rondon, explorador do sertão brasileiro, chegou a medir uma com 11 metros e 65 centímetros – mais ou menos como alinhar três fuscas, um atrás do outro.


Wa-qon

Este duende tipicamente andino é outro dos que gostam de devorar crianças. Ele usa máscara, e baixa rodando e dançando do céu, para levar as crianças. Se veste com um poncho, já feito em farrapos, de tanto que ele dança. Wa-qon também é o nome do gigante que tenta matar os gêmeos Willca, na história sobre como apareceu, que Uturtunku conta aos Três do Sul em A Flauta Condor.


O Sete Estrelo

Sobre Ahó-Ahó nós já falamos. E eu comentava lá no verbete referente a esse tradicional monstro do mundo guarani que ele é um dos Sete Estrelo um dos Eichú. Este verbete, que deixou a nossa corretora em dúvida (“é “sete estrelo“, mesmo? Não é “sete estrela”?” ela me perguntou, um pouco aflita) é assim mesmo. Refere-se à constelação das Plêiades. O nome, tal como está escrito, vem de Portugal. Existem muitas lendas referentes à essa constelação, muitas mesmo, em todo o mundo.

Os guaranis contam assim:

Taú, o mal, se apaixonou pela bela e sábia índia Kerená. Ele lutou por sete dias e noites contra Angatupyry, outro deus índio, e no final venceu, tomando Kerená por esposa. Os deuses ficaram zangados e resolveram castigar Taú, fazendo com que os sete filhos que o casal teve fossem monstros: o Teyú-jaguar (o lagarto-tigre de Paititi), Mboi-tu’í, Moñai, Jacy Jateré, Ahó-Ahó, Kurupi e Huichó. Mboi-tu’í era uma enorme serpente com bico de papagaio, senhor dos pântanos e protetor dos animais aquáticos; Moñai, é um monstro de aparência humana, que comanda os campos, o ar e as aves; Jacy-Jateré é um lindo menino, de cabelos dourados, que levava as crianças que encontrava para servir de alimento para Ahó-Ahó. É o senhor das abelhas e dos ervais. Kurupí tinha os pés voltados para trás e castigava os que derrubavam as árvores ou destruíam a natureza sem necessidade; Huichó era um homem feio, fétidos e pálido, de longos cabelos sujos, que em noites de lua cheia se rolava na terra e se transformava em um enorme cão de olhos cintilantes  e ia aos cemitérios comer os ossos dos defuntos (é, lobisomens tampouco são novidade para a América…).

Como você pode ver, vários personagens que aparecem ao longo de Os Sóis da América, são parte de, ou remetem para, esse importante grupo de criaturas míticas.

Os Sete Estrelo foram derrotados por Porãsy, considerada a “mãe” da beleza. Ela se enfeitou de flores e foi visitar Moñai, seduzindo-o e o convencendo a se casar com ela. Para o casamento, o monstro convidou seus outros irmãos. A festa foi em uma gruta. Depois da festa, com todos adormecidos por causa da bebida alcoólica que tinham consumido, os índios da tribo de Porãsy vieram até a caverna para livrar-se dos sete irmãos. Porém Moñai despertou e segurou Porãsy, obrigando-a a ficar na gruta. A corajosa índia pediu aos seus que fechasse a caverna e cumprissem o plano que tinham traçado, incendiando o interior da caverna e matando todos que ali estivessem – inclusive ela.

Dizem que durante a noite, a alma de Porãsy emergiu da gruta na forma de uma fumaça perfumada e colorida. Assim, ela se transformou na estrela da alvorada, Mbya-co’é. Já os irmãos subiram ao céu e se transformaram na constelação do Eichú, o Vespeiro, que é a mesma constelação que chamamos de Plêiades. Em O Coração de Jade, os irmãos são conclamados pelo Machí para ajudá-lo a dominar Tiahuanaco, durante o dia. À noite eles voltam para o céu, para brilhar – menos em noites de Lua Cheia.

Tudo isso remente a Arqueoastronomia, que é a ciência que estuda a Astronomia de acordo com ensinamentos, relatos e documentos dos povos mais antigos. Você pode encontrar muito material interessante na rede. Visite A Nova Democracia, para ler uma boa entrevista com Germano Bruno Afonso, professor aposentado da Universidade Federal do Paraná, e A Casa da Ciênciade onde veio a maior parte do material pesquisado para a saga e especificamente o material sobre as Plêiades.


Qarqacha 

Esta é uma daquelas assombrações que ninguém gostaria de encontrar pela frente. Também chamado de “Jarjaria”, ou “Condenado”, o Qarqacha é um personagem típico do Peru. É uma criatura ligada ao tabu do incesto, ou um padre que tivesse tido um caso com sua governanta (mais ou menos como no caso da Mula-Sem-Cabeça). As lendas diferem: em algumas, os envolvidos no caso, ainda durante a vida, se transformam, à noite, no Qarqacha; em outras, é a alma do condenado que volta ao mundo dos vivos, sob uma forma monstruosa, e muitas vezes se alimenta de seres humanos vivos.

As formas do Qarqacha se apresentar são muito diversas: pode ser um burro com galhada, ou uma lhama de duas cabeças (como em O Coração de Jade) ou, ainda, uma criatura, metade lhama, metade homem. Viu? Quem disse que na América não tem centauro?

O Qarqacha ganha esse nome por causa do ruído estranho que faz, uma espécie de gargalhada que soa como “qar-qar-qar”. Para acabar com um deles, é bom estar armado com crucifixo e a busca deve ser feita em grupo. A criatura precisa ser laçada com uma corda, de preferência de lã de lhama, e os caçadores devem ser corajosos e fortes o suficiente para segurar a criatura até o amanhecer quando, então, os encanto se desfará e todo mundo ficará sabendo quem é o sujeito. Daí é preciso fazê-lo passar vergonha. Não sei se a maldição acaba, mas, pelo menos, daí todo mundo sabe quem é o sujeito se por acaso o encontrar em uma quebrada obscura!


Karisiri

Esta terrível criatura, com a qual os Três do Sul se deparam em plena Tiahuanaco assombrada pelo poder do Machí, é proveniente da imaginação do povo andino. Os karisiri, que também podem se chamar “liquishiri”, tinha o terrível gosto de chupar a gordura do corpo humano, deixando suas vítimas numa agonia terrível. Ele se deslocava pelos caminhos, sacudindo uma campainha, e devorava as crianças desavisadas que encontrava em seu percurso. Também tinha o péssimo hábito de se vestir com a roupa que roubava de suas vítimas, depois que elas tinham morrido e sido enterradas. Assim, os andrajos com que se cobria estavam sempre cheio da terra de sepulturas.

Sua figura se mistura a de outro mito sombrio, desta feita ligada aos mestres metalúrgicos que fabricaram os sinos para as primeiras igrejas cristãs na América. Alguns desses homens foram chamados de “phistaco” (que em alguns lugares é a mesma criatura que o karisiri) e dizia-se que para forjar sinos de dobre de inigualável pureza e beleza, eles usavam a gordura de moças virgens. Brrr!


 

Yaguarete-Abá

Terríveis, os yaguarete-abá são índios que podem se transformar em onças. Eles o fazem por muitas razões: para vingar a traição da mulher amada ou para matar seus inimigos. Outros, ainda, o fazem por maldade, afirma  Adolfo Colombre em “Seres Mitológicos Argentinos“. Algumas pessoas afirmam que eles se transformam da seguinte maneira: à noite, se afastam na escuridão, até um mato fechado. Aí estendem no chão uma pele de onça, na qual rolam da esquerda para a direita. E aí, graças à um encantamento, se transformam. Para voltar a ser humanos, precisam rolar no chão, da direita para a esquerda.

Os que os viram, afirmam que se apresentam como uma onça de rabo curto ou mesmo sem rabo. Outras, afirmam que eles são metade homem e metade animal, com corpo de onça e extremidades humanas. Também dizem que eles são imunes aos tiros, e que só uma bala benzida pode matá-lo. Ou um corte feito por um facão bento.


Umita

Ela é estranha e terrível, e é uma assombração tipicamente quíchua: La Umita, que significa “cabecinha” no idioma dos incas. Trata-se de uma cabeça que vaga, sozinha, rolando pelos caminhos, com a cabeleira emaranhada, enormes olhos arregalados e dentadura proeminente. Vai pelos caminhos, rolando e, às vezes, choramingando e gemendo, uma típica alma penada. Se encontrar um viajante, o perseguirá e se o alcançar, lutará com ele. Se o sujeito conseguir suportar a luta até o amanhecer, ela se transforma em um novilho e confessará seus pecados – mas o ouvinte, em compensação, não poderá contar o que ouviu, porque perde a fala para sempre. Também existem lendas que dizem que ela afasta os maus espíritos, de modo que é bom para um viajante se fazer acompanhar por ela. E, ainda, que para acalmá-la é preciso deixar um pote com água em um lugar separado, para que sacie a sede que seria, na verdade, o que a faz sair de seu refúgio, seja lá onde for. Hernani Donato, em “Dicionário de Mitologia”, torna a assombração ainda mais terrível. Afirma que a Umita pode se agarrar com os dentes no pescoço de quem ataca ou se implantar nos ombros dela, tornando-a bicéfala. Também afirma que a pessoa atacada pela Umita não pode deixar que ela passe entre suas pernas. Se a assombração conseguir fazê-lo, a pessoa atacada perecerá.


Xocoyole

Ver verbete “Aca”, abaixo


Aca

Quando Pelume chega ao território dos astecas – ou “mexicas“, como eles se referiam a si mesmos -, o primeiro habitante que ele conhece é Aca. A palavra “aca”, em nahuatl, o idioma dos astecas, significa “alguém”, de acordo com um dicionário que pesquei na rede. Aca, em O Coração de Jade  é um xocoyole, uma entidade mítica, entre as muitas do mundo asteca. Como o próprio personagem conta, são crianças que morreram ao nascer, antes de serem batizadas. Ela se transformam num espécie de “ajudantes” do clima: sentadinhos no alto dos penhascos, fazem chover usando grandes cântaros de água, provocam granizo e às vezes até temporais.


 

Cavaleiros-águia


Quando eu escrevi “O Coração de Jade“, escolhi o batalhão dos cavaleiros (ou guerreiros da)-águia, por duas razões: eu gosto de águias e eles me pareciam suficientemente interessantes. Mal suspeitava eu – porque naquela época não tinha o material de pesquisa que tenho agora – que se tratava de um grupo tão seleto dentro do exército asteca – ou mexica, como eles preferiam.

O exército asteca era muito poderoso e bem organizado. Sendo um povo que se impunha aos seus vizinhos sobretudo pela força, eles precisavam estar sempre prontos para essa que era uma das atividades mais expressivas da civilização asteca: a guerra. Cada grupo de combatentes tinha um animal como seu representante, e os dois mais importantes eram os cavaleiros-jaguar, e os cavaleiros-águia. Os “jaguares” eram a elite dos guerreiros: fortes, impactantes, terríveis, capazes de aguentar situações totalmente desumanas. Os “águias” se rivalizavam com os “jaguares”, mas diferiam em uma coisa: a sua área de atuação era a infantaria e a espionagem. Eram considerados uma espécie de ninjas do mundo asteca, capazes de manejar armas mortais com extrema eficiência, mas também se misturar à comunidades e povos vizinhos dos astecas e descobrir o que estavam planejando. De todos os batalhões, eram os que se vestiam com roupas de combate mais leve: armadura de couro, coberta de penas de águia, além de um capacete de madeira com a forma da cabeça de uma águia e revestido com penas. Como armas, usavam preferencialmente lanças. E o detalhe que fechou com Tenamaztli: eram os únicos da classe guerreira asteca que não precisavam ser nobres para conquistar postos elevados. Precisavam, isso sim, demonstrar coragem, vigor e inteligência para chegar lá.

Tanamaztli, o personagem de O Coração de Jade, é exatamente este tipo de guerreiro. Não sendo de ascendência nobre, ele se apaixona por Kuautli, uma moça da nobreza. Para ter o direito de desposá-la, ele entra para o exército e conquista o título de cuachic. Os cuachic eram guerreiros que tinham realizado pelo menos 20 atos de bravura em batalhas. Popocatepetl, por exemplo, o guerreiro que, segundo a lenda, deu origem ao vulcão da Ciudad de México (a capital do México), foi um cuachic. Sendo Cavaleiro da Águia e tendo conquistado o título de cuachic, Tenamaztli também teria direito e voz no Grande Conselho, que regia a vida do império asteca.


Nomes dos personagens em Nahuatl

Outro desafio importante de O Coração de Jade foram os nomes dos personagens mexica. A questão é que o idioma falado por esse povo, o idioma nahuatl, gera palavras que, para nós brasileiros, em especial, são longos e muito complicados de dizer. Por isso, tive de ir improvisando. Segue uma lista dos significados dos nomes dos personagens que aparecem no livro. Todos eles foram pesquisados em redes de vocabulários e glossários da Web, usando sempre dois ou mais sites como referência, na tentativa de minimizar as possibilidades de erro.

Cuican: (nome da mãe de Tanamaztli) cantar

Coyotl: (amigo de Tenamaztli) coiote

Izta Miztli: de “izta”, branco, e “miztli”, puma. O “puma branco”

Kuautli: (noiva de Tenamaztli) ou “kuahutli”. Águia.

Papalotl: (apaixonada por Tenamaztli) “borboleta”. Para os mexica, a borboleta era uma metáfora para a mentira. Também por isso, os personagens de O Coração de Jade chamam Papalotl de mentirosa.

Solín: (criada na casa onde vive Papalotl) “codorna”

Tenamaztli: os mexica faziam um pequeno fogão com três pedras (no meio das quais se acendia o fogo) e uma chapa. Cada uma das pedras era chamada de “tenamaztli”, e metaforicamente, é uma expressão associada a homens firmes, que não se abalam por qualquer coisa.


Chocolatl

Tá, não é um personagem. Mas que é de sonho, ah, isso não se discute!

O chocolate é uma invenção dos povos da América Central, e não pense que é um processo fácil chegar a essa delícia. É preciso fermentar a amêndoa do cacau, torrar para daí moer e poder fazer as gostosuras com ela. É um processo longo e demorado e eu sempre fico surpresa ao perceber que alguém pensou que tal coisa pudesse ser comestível… enfim, o cacau tornou-se tão importante, que suas favas serviam como dinheiro entre os povos ameríndios.

Os europeus conheceram o cacau através dos maias. Cristóvão Colombo foi o primeiro a falar sobre as famosas favas de cacau, mas foi só Hernán Cortéz, o comandante das tropas espanholas que tomaram o México, quem descobriu o que os povos centro-americanos de fato faziam com elas. Os astecas produziam uma bebida chamada chocolatl a partir da amêndoa beneficiada do cacau, que era uma árvore nativa do México. Essa era uma bebida amarga, à qual se acrescentava baunilha (que também vem de uma planta, na verdade uma orquídea, nativa das florestas tropicais) e/ou pimenta. A bebida era restauradora, combatia o cansaço e tinha fama de ser afrodisíaca. Era considerada sagrada, e servida fria, sem leite ou açúcar. Os europeus a achavam muito amarga. Com a descoberta de que se podia adicionar leite e adocicar a bebida, além de servi-la quente, o consumo do produto disparou entre os europeus. O segredo de sua produção e preparo conseguiu ser mantido em segredo pelos espanhóis durante mais ou menos um século (que ainda hoje servem um chocolate quente delicioso, grosso e inigualável), e vendiam a gostosura à peso de ouro para a elite européia.


Mamãe de Todos Nós

Esta é uma das licenças poéticas a que tive de me render. Portanto, minha personagem mais querida de O Coração de Jade não reside nas lendas do povo mexica, embora tenha nascido a partir delas.

Acontece o seguinte: eu queria colocar na história a deusa asteca que representa a Terra. Um de seus nomes é Coatlicue. Contudo, Coatlicue, que, dizem gerou todos os 400 deuses astecas, tinha várias facetas sobre as quais achei complicado falar em um espaço tão pequeno, e para crianças de diferentes registros culturais, especialmente o Brasil. Inicialmente, quem vê sua imagem, se assusta. Coatlicue tem uma forma aterradora, que se completa com uma indumentária ritual ainda mais assustadora: a deusa mãe de deuses usa uma saia de serpentes (de fato, seu nome significa exatamente “a das saia de serpente“) e um colar de corações e mãos humanos. Sua estátua mais famosa exibe três pernas terminados em garras de ave de rapina, e a cabeça da deusa é uma monstruosa serpente. Ela representava a guerra e a ela eram dedicados alguns daqueles rituais sangrentos que marcaram a cultura mexicana, chocando os conquistadores espanhóis (só para constar: os mesmos homens que se chocaram com os rituais sangrentos que envolviam sacrifícios humanos, sacrificaram um povo inteiro para poder conquistar as suas terras e riquezas. Mas isso não vem ao caso, agora). Coatlicue era muito velha e eu fiquei imediatamente tentada a colocá-la de lado e ir buscar uma outra solução para o que precisava no momento.

Mas, daí, veio uma vozinha, que me acompanhou o tempo todo em que escrevi Os Sóis da América e me soprou no ouvido “olhe três vezes: olhe de novo, olhe além da forma, olhe além preconceito”.

E aí tudo mudou. Mas preste atenção, porque é complicado.

Coatlicue é o outro nome para Cihuacoatl. Essa deusa era muito mais do que a superfície: por um lado ela era a deusa da guerra, e a guerra era o que movia o povo mexica (eles faziam a guerra para capturar prisioneiros para sacrificar em seus rituais). Portanto, em certa medida ela encarnava a alma da cultura desse povo. Por outro, ela era a deusa que tinha dado à luz, todos os deuses do panteão asteca. Além disso, e acima de tudo, ela era a deusa da Terra. E como deusa da Terra, ela era também a deusa da Vida e da Morte. Portanto, ela é a deusa da existência. Além disso, há uma outra deusa que pesquisadores como Alfonso Caso, consideram como a terceira faceta da mesma entidade: Tlazolteotl, a devoradora de imundícies. E quando eu cheguei a esse conceito tão caro à cultura ocidental, a Deusa Mãe de três faces, pirei na batatinha. (Lembrando só três: para os celtas, a Lua é a Mãe Tríplice, e três são as suas faces místicas; três eram as Górgonas gregas, das quais, a Medusa é a mais famosa; três são as Moiras, mulheres que, também de acordo com os gregos, fiavam, teciam e cortavam a vida dos homens). Não tinha como deixar de lado uma deusa que era ao mesmo tempo a Vida, a Morte, e aquela a quem confessamos nossos pecados, a devoradora de imundícies, que, como a própria Terra, devora nosso lixo e o devolve de outra maneira (e isso você pode entender em todos os sentidos que desejar: psicologicamente, esteticamente, ecologicamente, etc, etc.). Isso para não contar que além dessas duas maravilhosas deusas, havia muitas mais: Xochiquetzal (flor preciosa, deusa da vida sexual e da beleza) e Cihuteteo (as mulheres deusas, mulheres que, tendo morrido durante o trabalho de parto, eram consideradas guerreiras e deusas), só para citar dois nomes.

Mas, como por tudo isso em um personagem só?

mamãe de todos nós

Mamãe de Todos Nós, por Fabiana Boff

Ah, sim, e temos Aca. Para ele, a Mamãe de Todos Nós representa isso mesmo: a mãe. Uma mãe linda, porém terrível, exigente, mas também generosa, carinhosa e também firme. A mãe que é doce, até que você passa dos limites. Daí ela vira uma autêntica fera. Foi então que me veio a ideia de uma personagem, uma deusa, que representasse todas elas. E sendo a representante de todas as deusas, ela precisaria ser diferente de tudo o que os Três do Sul já tinham encontrado. Ela precisava ser como a própria Terra: jovem e velha ao mesmo tempo. Feliz e triste. Boa e maléfica. E como o próprio planeta, teria de ser vista de diferentes maneiras por cada um dos personagens: para Pelume, que busca a sabedoria perdida de sua tribo, ela parece uma anciã; para Misqui, que está desabrochando como mulher, ela parece a mãe; para Nimbó, que está descobrindo o amor, ela parece uma donzela por quem qualquer homem se enamoraria. Para cada um deles, ela dá o que precisam: para Nimbó o despertar da adolescência, para Misqui a confiança de ser o coração de ambos guerreiros que a acompanham, e para Pelume, a aranha da teia dourada, Tocatl, sobre a qual falaremos em outra ocasião.

Isso tudo para mim, é o planeta Terra.

A Terra: a minha mãe, a sua mãe. A mãe de nossos pais e nossos avós. A verdadeira Mamãe de Todos Nós.

Se você quiser ler um estudo interessante sobre as deusas astecas, clique AQUI


Ehecatl

Como você sabe, o Vento vem ganhando vários nomes e formas ao longo de Os Sóis da América. Isso é assim porque essa incrível força da Natureza tem “representantes” importantes em todas as culturas. Na civilização asteca, ele é inclusive um deus: Ehecatl. Mas, talvez, você tenha se confundido, porque ao mesmo tempo, ele é tratado como Quetzalcoatl, que era um dos deuses mais importantes do riquíssimo panteão mexica. O caso é que o Ehecatl, o vento, é uma divindade ligada diretamente a Quetzalcoatl, tanto que em uma das histórias de fim do mundo, quanto Tezcatlipoca derruba do céu Quetzalcoatl em forma de sol, ele causa um terrível vendaval, ao cair e a esse episódio, os astecas chamavam de “Sol do Vento”. Por isso quando nosso bom amigo Furufuhué aparece pela primeira vez para Pelume, ele revela a monstruosa face da magnífica Serpente Emplumada. Assim, Ehecatl é apenas um dos muitos nomes do vento – e o vento é uma das formas de expressão deste deus tão importante para a cultura mesoamericana que é Quetazalcoatl.


Senhor dos Yeyecame

É um dos títulos do vento, no México. Veja Quetzalcoatl, mais abaixo.


Quetzalcoatl

Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada. Aí está um deus asteca (mexica) importantíssimo. Na verdade, mais do que mexica, ele é o deus centro-americano por excelência. Está presente em várias lendas e mitos da cultura mexica, da Criação dos Sóis mexicanos, até a criação dos monstros que, diz a tradição, estarão no fim do Quinto Sol: as tzitzimines. Sim, porque Quetzalcoatl foi o responsável pelo resgate da Criação, do homem e também é um dos responsáveis pelo surgimento dos temíveis monstros do Crepúsculo.

Sua lista de aventuras e feitos é longa, e os pesquisadores afirmam que ele é uma deidade ainda mais antiga do que a cultura asteca: Quetzalcoatl (ou Quetzalcóatl, com acento), já era cultuado pelos Toltecas, que eram o povo que existia na região do México, antes da chegada dos astecas, por volta do século XII. Os maias o cultuavam sob o nome de Kukulkán. Sabe-se que sua origem é ainda mais antiga, tendo sido cultuado pelos Olmecas e tendo aparecido, provavelmente em Teothiuacan, a cidades dos deuses, onde há uma pirâmide em sua homenagem (é bom lembrar que Teothiuacan começou a ser construída por volta do ano 100 a.C. e que seus primeiros monumentos foram erguidos por volta de 250d.C. ou seja, mais de 300 anos depois. Quando os astecas se estabeleram onde hoje é a capital do México, Teothiuacan já havia conhecido a decadência).

Quetzalcoatl é uma serpente e tem plumas, isto é, voa. Por isso, está relacionado com as forças da Terra em ascenssão. Também é o Deus do Vento, além de estar associado à Vênus, à Luz e à manhã.

Irmão gêmeo de Xolotl, que representa a morte, Quetzalcoatl representa a ressurreição.


 

Tocatl

“Tocatl”, em nahuatl, significa, simplesmente, “aranha”. Bem, essa foi outra grande ousadia que tomei em O coração de jade: dar uma forma à aranha que cedeu sua teia para que Tezcatlipoca descesse do Yayauhco (veja verbete abaixo) para confrontar seu irmão. É que ao deparar-me com a aranha de teia dourada (a Nephila Clavipes, aí ao lado) não pude resistir à tentação de incorporá-la à história. Era tão perfeita!

Contudo, se você encontrar uma no seu jardim (elas se espalham por toda a zona quente das Américas), observe com atenção, mas não ponha a mão. As Nephila são venenosas e embora seu veneno não signifique uma ameaça para humanos, elas picam e você não vai querer ficar com a mão doendo, não é mesmo? Outra curiosidade sobre esses incrível animalzinho, é que seu fio é tão forte, que é possível tecer com ele e produzir tecido, um tecido dourado de seda aracnídea perfeita, algo único. Sua cor evoca, imediatamente, o Sol.

Por outro lado, o animal que os astecas identificam como o possível “doador” da teia de Tezcatlipoca é um típico habitante dos desertos, que atende por vários nomes: aranha camelo, escorpião vento ou aranha sol (veja ao lado). Esse animal de aspecto assustador, contudo, não é uma aranha e tampouco tece teias. Ela tem dez patas e se alimenta de insetos, caçando à noite (território temporal de Tezcatlipoca), porque não suporta a luz do Sol. Contam-se inúmeras histórias terríveis sobre esses animais, mas os pesquisadores já avisaram que eles não tem veneno e que o máximo que podem fazer é um corte na pele humana e, eventualmente, defender-se com alguma substância que poderá causar alergia. O que é verdade sobre eles é que são extremamente rápidos e bastante agressivos. Assim que, se um dia você encontrar uma aranha sol, o melhor é manter distância dela. Mas não deixe de observá-la: ela faz parte de uma das mais importantes lendas do panteão asteca e merece respeito.


Tezcatlipoca (Teia de Aranha)

Este é um dos mais importantes deuses astecas, ao lado de Quetzalcoatl. Ele é uma espécie de contrário deste último, mas ambos sempre são muito atuantes em mitos que explicam a origem das coisas e do Universo. Seu nome significa algo como “senhor do espelho fumegante”, mas existem outras traduções possíveis, até porque este espelho era uma pedra de obsidiana polida, o que equivale a dizer que ele carregava consigo um espelho negro, com o qual podia observar todo o mundo, e que fazia dele um deus onisciente. Foi graças a esse espelho que ele descobriu que Quetzalcoatl estava empenhado em abolir os sacrifícios que ele próprio havia instituído. Zangado com intervenção do irmão (os deuses astecas são, basicamente, todos irmãos), ele decidiu descer do Yayauhco, o lugar onde habitava, para interferir, e ele o fez usando como “corda” um fio de teia de aranha (daí a ideia de Nimbó fazer um jumping dentro do vulcão).

A cor com que esse deus se apresentava era o negro e, também, o verde. Ele regia o Norte, o céu noturno e a região associada à morte. Também reinava sobre o 6º Céu dos astecas, o Yayauhco, onde nascia a noite (os astecas acreditavam que o céu se dividia em treze partes, sendo que a mais próxima da Terra chamada  Ilhuicatl Meztli, “onde se move a Lua”, e o mais distante, Omeyocán, a “região da dualidade”, onde morava o deus supremo Ometeotl, que era composto de duas outras divindades, uma masculina e outra feminina).

Voltando à Tezcatlipoca, algumas lendas, afirmam que ele usava seu espelho como apoio, no lugar do pé que lhe faltava, devorado por um crocodilo gigante chamado Cipactli, quando Tezcatlipoca e Quetzalcoatl criaram o mundo.


Xolotl

Xolotl é um deus asteca pouco conhecido, mas bastante interessante. Ele é irmão gêmeo de Quetzalcoatl, embora não compartilhe com esse personagem da força, coragem e audácia que o levou a refazer a Criação junto com os outros deuses. Contudo, foi Xolotl quem acompanhou Quetzalcoatl à Mictlan, a terra dos mortos, para buscar os ossos dos homens a fim de refazer a humanidade que viria a povoar o mundo do Quinto Sol asteca.

Xolotl podia assumir a forma de um cão vermelho e sua função, no panteão divino asteca, era conduzir os mortos até Mictlan, o mundo inferior. Em outras lendas, ele guiou os chichimecas até a região que viriam a ocupar, no México, confundindo-se com uma figura provavelmente histórica.

Contudo, Xolotl nunca foi muito corajoso e a covardia era algo que irritava profundamente os astecas. Dizem que quando os 400 deuses decidiram se sacrificar para que Tonatiuh, o Sol, tivesse forças para se mover, Xolotl ficou com medo e se recusou a sacrificar-se com eles. Para fugir do sacrifício, transformou-se no Axolotl, um tipo de salamandra que só existia no lago de Texcoco, onde ficava Tenochtitlán. E por isso ele temia e desejava o Sol.

O axolotl é um pequeno animalzinho, frágil, que está em extinção. Esse tipo de salamandra, porém, merece ser preservado a todo custo, porque em seus genes há um segredo maravilhoso, que precisa ser desvendado: o axolotl é capaz de regenerar, praticamente, qualquer membro de seu corpo, que tenha sido extirpado. Se pudermos entender como funciona esse mecanismo, seremos capazes de solucionar com total eficácia a situação de pessoas que tiveram alguma parte do corpo amputada.


Tzitzimime

Eis aqui criaturas que realmente deixam qualquer um de cabelos em pé. Elas são entidades femininas, mas também são monstros que esperam o momento certo para destruir o Quinto Sol asteca e devorar a toda humanidade. Esperam apenas o entardecer para vir à Terra, onde buscam viajantes solitários para atacar, agindo, mais ou menos, como vampiros. Em algumas histórias se assemelham à belas mulheres, pelo menos de longe. Mas sua aparência mais frequente é a de esqueletos que lembram mulheres e usam saias feitas de caveiras, de modo que ao se aproximarem de suas vítimas, é possível ouvir o ruido que fazem.

As tzitzimimes são comandadas por Itzpapalotl, a Borboleta de Obsidiana que, por certo, tem um templo próprio em Tenochtitlán (veja na aba Lugares de Sonho). Elas são associadas aos terremotos e às estrelas. De fato, as tzitzimimes são as estrelas e moram no 2º céu asteca (lembre-se de que eles acreditavam que o céu se divide em 13 “andares”), o Ilhuicatl Citlaco ou “onde se movem as estrelas”. Elas se apresentavam em branco, amarelo, vermelho e azul. Quando havia chuva de estrelas, os astecas acreditavam que eram elas, “vindo” para a Terra. E na cerimônia do Fogo Novo, supunha-se que estivessem a espreita, esperando que o ritual não desse certo, quando, então, poderiam atacar. Mas isso, até agora, não aconteceu. Até agora, como diria Papalotl, o Sol sempre voltou ao seu lugar. Ufa!


Tonatiuh

Ver o vocábulo “Nanahuatzin” mais a baixo.


Nanahuatzin

Das muitas histórias que li sobre os deuses astecas (mexicas), esta é uma das mais bonitas. Também é uma narrativa que se adecua bem aos nossos valores ocidentais, onde virtudes como a coragem, a fé e a obediência aos que sabem mais do que a gente são exaltadas frente aquelas coisas óbvias como beleza, juventude e riqueza.

A história de como o feio deus Nanahuatzin, pobre, doente e coberto de chagas, transformou-se na figura espetacular do Sol, Tonatiuh, é calcada na velha sabedoria que as avós resumem a “quem vê cara não vê coração”. Pois no coração, Nanahuatzin era muito mais valente e valoroso do que o outro deus, belo e forte, que também se cadidatou a Sol…

Bom, se você não leu O Coração de Jade, já deve estar perdido. Então, vou contar, com as palavras de Aca, nosso bom xocoyole, como Nanahuatzin se transformou em Tonatiuh:

“– Finalmente, refeito tudo, os deuses decidiram dar continuidade à vida. Mas ainda faltava o sol. Faltava um sol que fosse definitivo, que não fosse mais motivo para disputas. Os deuses se reuniram de novo para decidir quem seria o sol. E acharam que deviam criar também, a lua. Para se transformar no sol, entretanto, era preciso que o candidato se atirasse em uma fogueira ardente, de onde emergiria renovado. Depois de muito falar, os deuses escolheram Tecucciztecatl, um deus lindo e orgulhoso para assumir o glorioso posto. Acharam que ele poderia ser o sol, por que era belo, impávido e grande. Para a lua, escolheram Nanahuatzin, um deus pequeno e feio que ninguém queria por perto, porque tinha o corpo coberto de feridas. E Nanahuatzin, que era humilde e sincero, obedeceu. Então, quando chegou a hora, Tecucciztecatl preparou-se para se atirar à grande fogueira acesa pelos deuses. Ele tentou uma vez, mas não conseguiu. Era belo, não queria morrer. Tentou de novo, mas também não conseguiu, era grande, mas seu coração era pequeno. Tentou outra vez, e ainda assim falhou: era orgulhoso, mas não tinha coragem. Foi até a fogueira uma última vez, mas retrocedeu, vencido. Tecucciztecatl não tinha valor para ser o Sol! Então os deuses ordenaram a Nanahuatzin que tentasse e ele não piscou. Disse “seja feita a sua vontade, meus irmãos” e saltou para dentro das chamas! Coberto de vergonha, Tecucciztecatl também saltou, mas então era tarde demais. Quando Nanahuatzin se ergueu da fogueira, era ele o sol: Tonatiuh! Tecucciztecatl ergueu-se feito lua, mas Quetzalcoatl, zangado com sua covardia, jogou nele uma lebre e por isso a lua, hoje, tem uma lebre gravada em sua cara. E é por isso que a lua não tem grande luz: a covardia não tem brilho algum. Mas o Sol, Tonatiuh, ele sim é que brilha: brilha porque tem valor por si mesmo, em seu coração, sem fazer diferença entre os belos e os feios, entre os ricos e os pobres. Brilha para todos igualmente. Cabe a nós sabermos aproveitar ou não as suas graças. Essa é a história de como apareceu o quinto sol dos astecas.”

Bom, essa é a versão do livro. O que eu não contei, sobretudo por uma questão de espaço, é que assim que subiu aos céus, os deuses mexicas perceberam que Tonatiuh, não se movia. Ele não tinha forças para isso. Ele ficava sempre no mesmo lugar, brilhando e queimando a terra. Então, antes que uma tragédia acontecesse, eles resolveram que cada um dos 400 deuses presentes à cerimônia também deveriam se sacrificar. Assim , todos eles arderam na fogueira, entregando suas vidas, força e sangue, para que Tonatiuh não apenas brilhasse, mas também pudesse se mover pela esfera celeste. Na religião asteca, era justamente esse o papel dos seres humanos: garantir que os deuses continuariam a ter forças para existir no plano cósmico. Daí que eles promoviam os terríveis rituais de sacrifício humano que tanto chocaram os espanhóis quando eles chegaram ao México. Entretanto, como eu já disse em outro post, isso não os impediu de promover a uma carnificina em nome da Conquista dos novos territórios e de suas riquezas, para seus soberanos na Espanha.


Ictinike

Ictinike, o pai das mentiras e o filho do Sol para os lakota, é um personagem cheio de histórias. Associado a todas as coisas ruins, foi expulso do céu pelo seu pai, por tê-lo ofendido. Porém, nem todas as histórias que se conta sobre ele são negativas. Algumas até são engraçadas. Em A Pedra da História, mais do que maldoso, ele aparece como uma criatura sombria com quem o Coiote tenta formar uma aliança.


Coiote

Eis aí um personagem cheio de histórias. Tal como o Corvo, diga-se de passagem, mas eu precisava escolher apenas um.

O Coiote é um sujeito que aparece em grande parte do panteão dos nativos Norte-Americanos. Pode ser uma criatura benéfica, outras vezes nem tanto, pode ser um heroi civilizador e, até mesmo, um deus criador. Normalmente, o que se destaca nele é a malícia e a astúcia do espertalhão que se diverte enganando os outros. Dizem que espalhou as estrelas da Via Láctea, certa vez, ao tropeçar enquanto carregava a caixa com as estrelas.

Para os crow, o Coiote tem um irmão menor, Cirape, o pequeno coiote, ou irmão, que sempre tenta seguir os passos do irmão mais velho, tentando imitar suas atitudes. Ele deseja conquistar sua admiração mas, ao mesmo tempo, gostaria de provar que se sai melhor do que ele. Um sentimento bem típico de amor fraternal.


Corvo

Pois é… quem conhece bem o folclore da América do Norte, vai sentir falta do Corvo. Sinto muito, foi absoluta falta de espaço.

O Corvo é um personagem importantíssimo nas lendas norte-americanas. Tanto quanto o Coiote, mas ainda mais positivo. O Corvo aparece como um sujeito persistente, bravo e esperto na maioria dos contos. Em alguns deles criou o Sol e a Lua, em outros ensinou os homens a usarem o fogo – e trazer esse segredo para a Terra foi o que terminou tostando suas penas até que ficassem da cor do carvão. Para os chippewa, crianças desobedientes podem se tornar corvos.


 

Vaga-Lumes

Contam os apaches, que no início, apenas o vaga-lumes detinham a sabedoria de como fazer o fogo. Porém, eles eram uma tribo muito ciumenta, e não ensinavam aquele conhecimento para mais ninguém. Foi então que apareceu em cena a raposa (não o Coiote), que é outro personagem importante dos contos nativos norte-americanos. Pois a raposa foi lá, com a cara e a coragem e deixou a sua cauda incendiar. Então ela fugiu com a cauda em fogo, e levou esse importante elemento até os animais e até os apaches mais próximos, que a partir de então tiveram acesso a ele.


Mulher-Aranha

Pare um momento! Não estamos falando da personagem da Marvel, não. Estamos falando de uma das mais importante personagens míticas do norte do continente americano. A Mulher-Aranha, que deu aos ojibwa o filtro dos sonhos e que aparece em A Pedra da História (e com quem Pelume discute sem a menor sombra de medo). Ela aparece entre os hopi, os navajo, os ojibwa e muitas outras etnias, o que significa que tem muitos nomes. Hahai Wugti e Sussitanako são apenas dois deles. Entre os cherokee e os navajo, ela é conhecida como “Avó-Aranha”, e trouxe a luz para a humanidade, que antes vivia no escuro. Os hopi acreditam que ela criou tudo o que existe com seu pensamento, e que se ficarmos em silêncio e em paz, poderemos ouvir sua voz no vento.

Como não poderia deixar de ser, a Mulher-Aranha tem muitas histórias. Em algumas delas, ela participou da criação do Universo. Em outras, ela tem uma função de controle sobre as crianças, como a história de que os pequenos que não se comportam são comidos por ela. Em outras lendas, é ela quem ensina às mulher à tecer.

Sua morada é bem variada, mas a que usei para a história é a Spider Rock, a “pedra da aranha” (veja verbete correspondente na aba “Lugares de Sonho”). Este local existe de verdade e fica no Canyon de Chelly, que fica na área que os navajos consideram como o centro do mundo.


Filtro dos Sonhos

Olha ele aí, esse objeto de decoração que virou moda. Você compra em qualquer camelô, em qualquer banquinha da praia, de tudo quanto é cor e tamanho. Até para pendurar no carro, tem. Mas eu aposto que pouquíssima gente sabe de onde vem o filtro dos sonhos.

Eles são um objeto criado pela cultura ojibwa. Você sempre pode comprar em algum lugar, mas o ideal é que você faça o seu, porque então haverá nele significados pessoais. Ele é feito, normalmente, de um ramo de salgueiro-chorão, que é flexível, encapado em tiras de couro. Nele são presos uma série de fios que serão interligados, formando um padrão que lembra uma teia de aranha. Nele você pode colocar seus próprios enfeites, contas, penas, essas coisas. O meu tem, inclusive, uma concha e uma pedra!

Diz a lenda que o filtro dos sonhos foi concedido à uma avó ojibwa pela própria Mulher-Aranha, ou por uma aranha que representava a entidade. Uma certa tarde, uma avó ojibwa viu uma aranha em sua tenda. O animal estava tecendo sua teia e a mulher ficou observando-a para ver se aprendia como fiar um padrão tão fino e forte quanto a teia do animal. Nisso, entrou um dos seus netos mais velhos. O jovem ficou espantado com o animal ali dentro e quis matá-lo. A velha senhora, porém, não deixou que ele fizesse isso, defendendo o animal. Quando o jovem saiu, a aranha voltou-se para a mulher e lhe disse que como retribuição por ter lhe salvo a vida, ia ensinar como tecer um filtro de sonhos. Ela assim o fez, criando esse artefato tão original. Quando terminou, explicou a mulher que devia deixar um buraco no meio da rede. Assim, os pesadelos ficariam presos nos fios, e os sonhos bons passariam pelo buraco do centro e pelas manhãs, o Sol dissiparia os maus sonhos aprisionados. No buraco do centro ela deveria, ainda, colocar uma pena, antes de pendurá-lo sobre o berço, ou a cama, de seus netos. Se fosse para colocar sobre a cama de uma menina, a pena deveria ser de coruja, que significa a sabedoria. Se fosse sobre a cama de um menino, a pena deveria ser de águia, que significa coragem. Em outras tribos, quem dá o filtro dos sonhos aos homens, é grande mãe búfala.

Os filtros dos sonhos são artefatos feitos especialmente para pendurar sobre a cama das crianças, protegendo-as dos pesadelos e possibilitando ao Grande Espírito que lhes envie sonhos, que lhes comunique boas coisas sobre o mundo.


Uktena

Se os habitantes da América Central tinham Quetzalcoatl, os habitantes da América do Norte tinham a Uktena. A uktena é uma serpente mítica de boa parte das tribos norte-americanas, como os cree, os ojibwa ou os dakota, e como Quetzalcoatl, está ligada à chuva, ao trovão e à água. Sua aparência, de modo geral, é a do livro: uma grande serpente, com cornos de veado e asas que a ajudam a se impulsionar. Também têm um diamante ou cristal na testa, o Ulushunti. A única grande diferença é que a uktena de A Pedra da História é muito menos venenosa do que a que aparece nas lendas. A uktena lendária é tão venenosa, que é impossível respirar junto dela, porque o próprio odor de seu corpo é venenoso. Também dizem que quem olha para a uktena, mesmo que ela esteja dormindo, está colocando sua família em risco.


Ulunshuti

O ulunshunti é o nome do cristal que a uktena tem na testa. Ele e uma pedra encantada, e quem consegue conquistá-lo terá sempre sucesso em tudo o que fizer: na caça, no amor, na guerra, fazer chover, etc. Mas ele é, sobretudo, uma pedra profética.

O problema é conseguir o ulunshuti… Ele fica na testa da uktena e seu brilho é tamanho, que cega a hipnotiza a pessoa que está tentando consegui-lo. Assim, o que acontece com o aventureiro que tenta conquistá-lo, é que o sujeito correr direto para a boca da uktena, que normalmente não está nem aí para os seres humanos, mas que não vai gostar de ser atacada. Além do mais, não esqueça, o hálito da serpente é venenoso, então normalmente o aventureiro não consegue chegar nem perto, antes de cair duro.

Porém, sempre há aqueles xamãs que conquistam o que buscam. Em todo o caso ter um ulunshuti não é tão simples assim. A pedra tem o mau hábito de tentar fugir, então é necessário envolvê-la em couros e guardá-la em um lugar bem escuro e inacessível. E de vez em quando mudá-la de lugar, porque ela “descobre” a saída. O dono do ulunshuti também deverá esfregá-lo com sangue de animais regularmente e pelo menos uma vez por ano, deverá molhá-lo com o sangue de algum veado abatido ou outro animal de grande porte, ou ela perderá seus poderes proféticos. Quando o proprietário do cristal morrer, será preciso enterrar a pedra com ele, porque senão ela sairá à noite de onde está, brilhante feito uma estrela,  e buscará pelo túmulo de seu guardião durante sete anos, vagando pelos caminhos feito uma assombração.

Ulunshuti, também pode ser escrito ulun’shuti.


O Coração da Uktena

Bom, já que estamos falando da uktena, deixem-me comentar um pouco a respeito da questão do coração do monstro. De fato, não conheço nenhuma lenda que comente a respeito de uma uktena que tenha retirado seu coração para pô-lo a salvo, mas esse esquema de narrativa é comum em várias histórias que li sobre monstros das mitologias norte-americanas. Como não era possível colocar todos eles na história, resolvi usar apenas o roteiro. Foi dessa maneira que o coração da uktena foi parar nas mãos do Machí.

A ideia de que um monstro, bruxa, feiticeiro, gigante ou criatura encantada, retirar o coração do peito e resguardá-lo é bem comum em várias mitologias do mundo e geralmente termina com um herói que encontra o coração e termina dando cabo do monstro.


Pássaro-Trovão

Personagem mítica quase tão importante quanto a Mulher-Aranha e, talvez, ainda mais popular do que ela. O Pássaro-Trovão, ou Thunderbird, é personagem de lendas de várias tribos, abrangendo uma área que vai do sudoeste do território norte-americano, à região dos Grandes Lagos. Por isso mesmo, este personagem tem vários nomes. O que não muda são suas características: são os pássaros-trovão os que provocam as tempestades: o trovão é o som da batida de suas asas, e o ar que elas movimentam, o vento. Em algumas histórias, o relâmpago é o resultado do piscar de seus olhos, em outras, ele leva consigo serpentes que se transformam em coriscos. Gigantesco, acreditam os pesquisadores que é um personagem inspirado na figura da águia americana. Como criatura mágica, tem vários inimigos, geralmente associados à água, como os ahke (veja mais abaixo), que na mitologia chayenne habitam as nascentes de água e estão sempre dispostos a devorar filhotes de pássaro-trovão.

Em “Animais Fantásticos e onde habitam“, filme com roteiro de J.K. Rowling, a criatura fantástica que Newt Scamander, o protagonista, está tentando reintroduzir no território mágico norte-americano, é um Thunderbird, um Pássaro-Trovão.


Ahke

Eis aí um personagem que meu deu muito trabalho. Inicialmente, a dupla de ahke que atacam os pássaros-trovão em A Pedra da História eram outro monstro folclórico. O problema é que eu não consegui cruzar a informação que eu tinha com nenhuma outra. De uma maneira geral, todas as criaturas míticas ou folclóricas de Os Sóis da América vieram de duas fontes bibliográficas diferentes, por uma razão muito simples: dependendo de onde vem a informação, o “bicho” fica limitado. Foi o que aconteceu com o lagarto-tigre, por exemplo. Então, eu não queria cometer o mesmo erro com as criaturas dispostas a enfrentar os pássaros-trovão.

O livro já estava escrito quando encontrei, finalmente, os ahke. Imediatamente efetuei a transformação, uma vez que os ahke tinham mais referências do que o outro monstro pesquisado. As referências continuaram poucas, mas me pareceu mais legítima que a que eu tinha inicialmente.

O nome “ahke”,  tem uma outra grafia mais corrente na internet: axxea. Eu usei “ahke”, porque me pareceu mais fácil de ler. Eles fazem parte da mitologia chayenne e se opõem aos pássaros-trovão. Habitam nascentes de água e sempre querem devorar os filhotes das grandes aves míticas. Eles nem são tão grandes: são uma cruza entre um lince e um peixe. Grande, mesmo, é o seu “parente”, o Mishepichu, que habita o imaginário da região dos Grandes Lagos, na divisa entre EUA e Canadá: eles são uma mistura de de peixe e puma.

Se você procurar por “axxea” na internet, vai ser enviado à sites de informática. O melhor é clicar AQUI e ser transferido imediatamente para uma referência sobre a mitologia norte-americana.


Canotila

Os simpáticos canotilas parecem ser tão delicadamente escorregadios nas florestas onde vivem, quando nos sites de informação. Geralmente, o que existe é uma brevíssima explicação de uma linha: “de acordo com os lakota, são criatura semelhantes à fadas, que vivem em florestas”. Como se o conceito de “fada” fosse algo simples, fácil e único. Quem escreve esse tipo de coisa, não tem a menor noção do que é uma fada, desde o ponto de vista do estudo do folclore.

Bueno, os canotilas são, sim, semelhantes à fadas em várias coisas. Eles não têm asas, mas têm diferentes tamanhos, podendo variar desde os quinze centímetros, até ser como um ser humano adulto. Vivem na floresta, conde caçam com muita sobriedade, sem fazer ruído, sem estragar a Natureza e sem deixar resíduos. Podem se confundir com a mata, mimetizando-se com os troncos. Constroem suas casas nos ramos mais fortes das árvores, de modo que ela seja confundida com as ramagens. Podem ser benéficos com os seres humanos, mas não perdoarão os que não respeitam o meio natural, os que quebram galhos, os que matam mais animais do que necessitam para comer, os que sujam as águas dos riachos. Para esse tipo de gente, os canotilas não guardam nenhum pingo de piedade.


Wendigo

Brrr! Aqui está um  sujeito que eu não gostaria de encontrar! E, não, não estou falando do personagem que apareceu em algumas histórias em quadrinhos. Estou falando dessa criatura feroz, que vive no interior das florestas do norte da América, criação da imaginação fabulosa dos algonquinos.

Contam eles que os wendigos são homens que, tendo se enfurnado na floresta profunda, passaram o inverno lá, sozinhos. E que para sobreviver, comeram… carne humana. Ou seja, caçaram outras pessoas, e as devoraram. Assim, o sujeito termina se transformando nesse ser que possui uma super-força, capaz de imitar a voz de qualquer outra pessoa. Como se não bastasse, são muito inteligentes, o que torna suas presas alvos fáceis para eles, que depois de transformados, passam a se alimentar de criaturas vivas – humanos incluídos – já que para algumas culturas, eles eram gigantescos, e cresciam na proporção do corpo que haviam consumido! Eles são tão terrivelmente famosos, que fazem parte da mitologia de várias etnias norte-americanas, incluindo os inuits.

Meio homem, meio animal, o Wendigo podia se apresentar com uma cabeça de cervo, com uma grande e afiada galhada. Associado ao inverno, ao frio e à ameaça da fome em regiões onde a caça se torna escassa durante a estação mais fria do ano, o Wendigo ainda podia tomar o corpo de um homem através do sonho e transformá-lo em um deles.

 

 

 


Heno

Ou Hino, Hine, Henon e uma outra grande infinidade de formas gráficas, é um importante deus dos iroqueses. Ele é o deus do trovão e está ligado diretamente à lenda de como apareceram as Cataratas do Niágara, que está reproduzida em A Pedra da História. Sua esposa é a deusa do Arco-Íris, em algumas tradições.


Glooskap e Malsum

O personagem de hoje tem diferentes grafias para seu nome: Gluskabe e Kluscap são apenas duas formas opcionais. Ele e seu irmão Malsum são figuras importantes para tribos do norte dos EUA e na costa leste do Canadá. Foram eles que fizeram o Universo, a partir do corpo de sua mãe, morta durante o parto dos gêmeos. Glooskap teria feito as coisas boas, as pessoas, os animais, o Sol e a Lua. Malsum fez a Terra, com seus vales e montanhas, além de ter criado as serpentes, e todas as coisas ruins. Os dois irmãos vivem em pé de guerra, nas histórias tradicionais, causando a morte um do outro, mas voltando em histórias seguintes, ressuscitando a partir de alguma fórmula mágica. Glooskap costuma se apresentar como um coelho. Já Malsum, aparece, frequentemente, na forma de um lobo.


A faca dentro da água

Bom, não é bem um personagem. Mesmo assim, eu o coloco aqui.

A certa altura da história dos Três do Sul, Nimbó está preso em uma cachoeira não muito grande, mas está se afogando. Pelume, que está tentando ajudar o amigo, vê, sobre uma pedra submersa que ele não consegue alcançar, por mais que se esforce – parece que a faca está sempre se esgueirando ao seu toque.

Essa é uma referência à uma lenda do leste do Canadá. Em um lugar chamado Riacho de Sangue, esta faca permanece repousada no leito de pedra, sempre ensaguentada. Quando alguém a tenta pegar, escapa dos dedos, como se tivesse vida própria.


Adlet

Cá estão umas excelentes assombrações do povo inuit, que a gente conhece popularmente como “esquimós”.

Os Adlet, também conhecidos por Erqigdlet, eram os dez filhos de Naviarsiang, uma mulher que não não tinha marido e terminou se casando com um cachorro com manchas brancas e vermelhas, chamado Ijirqang. Terríveis e ferozes, eles se alimentavam de sangue. Cinco dessas crianças atravessaram o oceano e foram ter em terras europeias onde, acreditavam os inuit, geraram as raças humanas europeias. Os outros cinco permaneceram no Pólo Norte. Possuíam um faro excepcional. Dizem que os Adlet também podiam ser uma tribo de criaturas metade homem, metade cão, muito velozes. Seus encontros com seres humanos geralmente terminavam em batalhas sangrentas, mas normalmente os humanos venciam. Eles são parte da mitologia da Groenlândia e da costa leste do Canadá.


Urayulli

Imagine estar andando por uma das matas do Alaska, no norte da América, e se deparar com um ser alto, coberto de pelos, de olhos luminescentes e braços tão longos que suas mãos davam nos pés. Não, não é, necessariamente, um Pé-Grande. Será, com maior certeza, um urayulli.Mas não precisa ficar com medo, não. Os urayullis, apesar da sua aparência assustadora, são pacíficos. Dizem que são crianças que fugiram de casa à noite e se perderam na mata, onde terminam se transformando nesse incrível criatura.

Isto é, desde que eles existam de verdade.


Tupilaq

E eu não poderia deixar de fora os tupilaqs, de jeito nenhum. Esses monstrinhos são criados pelos feiticeiros inuits  com restos de ossos, pele e tendões de baleia. Alguns deles usavam, também, restos tirados de cadáveres de crianças. Eles era um instrumento de vingança, criados por esses feiticeiros para se vingar de seus inimigos e se livrar deles, literalmente. Contudo, era um feitiço arriscado: se o inimigo do feiticeiro tinha mais poderes do que ele, poderia mandá-lo de volta ao seu criador para matar a ele!


Ishigaq

Os ishigaq também são personagens da mitologia inuit. Pequenos, com apenas uns 30 cm de altura, eles flutuam sobre a neve, sobre a qual se deslocam sem deixar rastros. São semelhantes à fadas, e é claro que eu não podia deixá-los de lado.


Ijaraq

O Ijaraq, como outros tantos, é um dos representantes da rica mitologia inuit. Para quem não sabe, os inuit é como o povo esquimó se chama a si mesmo. Fiquei com muita pena de não poder me estender mais no território gelado da terras do norte da América, porque eles tem criaturas realmente incríveis. Então eu coloquei o que pude nos últimos capítulos de A Pedra da História. 

O Ijaraq é uma criatura peculiar, que adora trocar de forma: ele é um metamorfo da melhor estirpe. Às vezes são uma criatura meio homem, meio caribu. Eles vivem entre os mundos dos vivos e dos mortos, porque, segundo as lendas contadas pelos anciãos, ele é, originalmente, um homem que, tendo se deslocado para o extremo norte em busca de caça, terminou preso entre os dois mundos, transformando-se assim, nesta criatura.

O Ijaraq adora raptar crianças. Mas se a criança for esperta e souber conversar com ele, poderá convencê-la a soltá-la e deixá-la voltar para casa.

 


 

 

 

Ahkiyyini

Outra criatura saída dos pesadelos inuit. Homens que durante a sua vida gostavam muito de bater tambores e dançar, ao morrer se transformavam nos ahkiyyini, esqueletos que emergiam das tumbas para tocar música com… ossos humanos. Aliás, seus próprios ossos! Com uma tíbia, os ahkiyyini batiam nos restos de escápulas e costelas e provocavam um som que enchia os rios de ondas e afundava embarcações, enquanto eles dançavam.


Akhlut

Esta é mais uma assombração do povo inuit, mas dos clãs que vivem no Estreito de Bering. O akhlut é uma orca que quando fica com muita fome, vem à terra para caçar. Quando ela sobe no gelo, ganha patas, focinho e orelhas, transformando-se em uma espécie de lobo gigante e solitário. Depois de caçar e saciar seu apetite, ela retorna ao mar e volta a se transformar em orca. Os akhluts são criaturas perigosas para todo tipo de animais, inclusive os homens.


 

 

 

 

 






 

 

 

 

 

 

 

 

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