“Tá na mesa”, edição de Natal

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No próximo dia 17, à partir das 15h, estarei no Suave Café (Av. Maurícios Cardoso, 2120, em Hamburgo Velho, Novo Hamburgo), realizando mais uma edição do “Tá na  mesa”, um evento informal, durante o qual os presentes poderão bater um papo amigável comigo, e, se quiserem, adquirir algum livro e levar para casa um autógrafo com dedicatória – aliás, um livro com dedicatória, autografado pelo autor, é um belo presente de Natal, fica a dica. apareça! Os três primeiros compradores que levarem a saga completa de “Os Sóis da América” levarão para casa um marcador artesanal, exclusivo.

 

Um pouco de fantasia americana nas telas

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Fui assistir “Animais Fantásticos e onde habitam o filme baseado na obra de J.K. Rowlling, com roteiro da própria autora, já sabendo que haveria um “bicho” fantástico americano. Eu estava louca para ver qual deles havia sido escolhido para a trama e não me decepcionei. O único que me deixou meio triste foi saber que dentro da sala de cinema lotada, talvez eu fosse a única a reconhecer a criatura e curtir o belo efeito especial com alegria (os demais ficaram encantados, eu sei, mas não creio que tenham reconhecido o Jojo de Sílex Vermelho).

Então, como eu acredito no diálogo das coisas culturais, deixo aqui um pedacinho de A Pedra da História, onde aparece a criatura magnífica de “Animais Fantásticos”. Não deixe de assistir ao filme. Além dos efeitos especiais, há uma mensagem realmente grande e importante para todos nós.

“- Vejam! – gritou Sílex, de repente. Ele apontava adiante, para o céu, e estava muito entusiasmado. – Vejam só aquilo lá! Oh, eu sabia que eram eles, eu sabia!

Os Três do Sul olharam na direção em que o amigo indicava e viram, lá no alto, um pássaro. Parecia um bicho bem grande. Súbito, um raio brilhou e por um instante as crianças acharam que o animal tinha sido atingido pela descarga elétrica. Mas quando o clarão esmaeceu, viram que ele continuava lá, e na batida de suas asas, ressoou um trovão

-Um pássaro-trovão! – gritou Sílex. Voltou-se para os amigos com um brilho novo nos olhos. – Que maravilha!

Outro relâmpago varou o céu.

-Seja lá quem for, terminará depenado por algum raio se não descer logo – observou Pelume depois que o crepitar do estrondo diminuiu.

Sílex riu:

-Não, você não entendeu! É ele quem faz o raio! O trovão é o som do bater de suas asas!”

A Pedra da HIstória – Os Sóis da América, vol. 4

O urubu-rei volta em outro mito sobre o Sol

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Quando retorna ao mundo andino, no início de “O Coração de Jade” Pelume encontra Furufuhué transformado em uma bela onça parda, um puma, chamado Chuquichinchai. Durante a conversa (bastante amarga, diga-se de passagem) entre os dois amigos, surgem algumas informações sobre como algumas tribos do sul do continente americano imaginam ser, ou ter surgido, o Sol. Um dos citados é o povo Carajá, e o seu mito Rarãsesã.

Os carajás acreditavam que seu primeiro ancestral tivesse vindo de um mundo subterrâneo, origem de todos os carajás. Essa ideia de que os homens teriam vindo do interior da terra (uma caverna ou um buraco que levaria a um mundo interior) é bastante comum. Os kaigangues, aqui do Rio Grande do Sul, acreditavam em um mito parecido, alguns mitos incas diziam que os homens teriam vindo de dentro de uma caverna, assim como diziam ter acontecido com os mexica, os astecas. E também, algumas tribos do sudoeste norte-americano contavam histórias assim, como os povos que viviam na região do Grand Canyon. Daí, talvez, a ideia de que o planeta seja oco e que há várias entradas para esse mundo interior distribuídas por aí, inclusive no Polo Norte, que foi uma ideia que circulou muito nos meios esotéricos há alguns anos.

Diziam os carajás, que um ancestral seu conseguiu sair de um buraco, certa feita, passando do mundo subterrâneo para o exterior, onde, então se deparou com tudo – ou quase tudo – o que existe. A floresta e o rio existiam, mas não existiam muitos animais. Tampouco o sol ou a lua e, portanto, o mundo estava mergulhando numa profunda escuridão, onde apenas as estrelas brilhavam nas profundezas da noite mítica. O ancestral teve uma ideia: em algumas histórias ele chamou Rarãsesã, que como os carajás chamam o urubu-rei em sua língua. Em outras versões, mais antigas, o ancestral deitou-se no chão e fingiu-se de morto. Em todo o caso, Rarãsesã apareceu, ao cabo de algum tempo e o ancestral o agarrou, porque sabia que o urubu-rei tinha o Sol com ele (mais ou menos como os gêmos míticos dos kamaiurás, Kuat e Iaê. Veja o post, AQUI). Na versão mais antiga, o ancestral arranca a cabeça do nobre animal, e com isso, conquista o Sol. No mito que usei de referência, e que é considerado mais atual, o ancestral consegue que Rarãsesã lhe dê o Sol, que, assim como a Lua, é um enfeite de sua cabeça pelada. Por isso, Furufuhué, transformado em Chuquichinchai, diz à Pelume que “o Sol é um enfeite na cabeça de um deus chamado Rarãsesã”. Eu gostaria de ter dado um jeito de colocar todo mundo na jornada de Pelume, mas não foi possível. Por isso, deixo aqui a referência ao mito desse importante povo sul-americano.

Se liga na promoção!

Está a fim de levar esse lindo marcador de livros artesanal, exclusividade de “Os Sóis da América”? É fácil: 1) coloque na web uma resenha sobre a série completa, ou sobre o volume de “Os Sóis da América” que você mais curtiu 2) publique o link  na página da série no Facebook (https://www.facebook.com/soisdaamerica/).
Pronto: entrarei em contato com você para combinarmos a melhor maneira de lhe entregar o marcador. Mas lembre-se: só valem os quatro livros da saga de Pelume, e só vai valer se você colocar o link na página do Face.
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Se liga…

Pessoal, eu tenho apenas alguns conjuntos completos de “Os Sóis da América“. Portanto, se você quiser adquirir o seu, lembre que as vendas acontecem apenas via internet. Vá para a Livrara do http://www.porteiradafantasia.com (clique AQUI) e adquira o seu, através do PagSeguro. Olhe com cuidado, que tem promoção. Corra, antes que acabe!

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O mundo é criado pelo “espuma do mar”

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Em sua viagem através do mundo andino, Pelume se depara com o mito da Criação através dos olhos dos Incas. E o que ele ouve em um sonho é mais ou menos o que os habitantes do Tahuantinsuyu acreditavam ter acontecido no início de tudo:

“Quando ainda não havia nada, havia Viracocha, que era um deus. Ele criou o céu, o mar e a terra, tudo o que há, na mais profunda escuridão, porque para aqueles tempos não havia, ainda, nem Sol, nem Lua. Ele não sentia falta da luz, podia fazer tudo no escuro mesmo. Assim, ele tentou povoar a terra pela primeira vez: esculpiu gigantes de pedra, que eram muito poderosos e muito mais altos do que ele. Mas ficou com receio de dar vida à criaturas muito maiores do que ele.Então os destruiu e fez outras criaturas, seres do tamanho dele. Foi assim que Viracocha criou os homens.

Depois que eles tinham sido criados, Viracocha os reuniu e lhes disse que fossem honestos, bons e trabalhadores, e que o adorassem até o final dos tempos, coisas com as quais todo mundo concordou. Mas foi só ele virar as costas para todos esquecessem a promessa. Viracocha ficou furioso e transformou os devassos em pedras, os pecadores em animais e jogou os demais em fendas profundas. Depois fez acontecer o dilúvio, que cobriu até as mais altas montanhas com água. Salvou apenas três homens, com os quais decidiu refazer a humanidade.

Depois que as águas do dilúvio secaram, Viracocha e seus três criados viajaram até o Tititcaca, que é o lago mais alto do mundo. Dizem os povos incas que lá já existia uma cidade e foi para lá que o deus foi para recriar o homem. Mas desta vez, que era a terceira Criação, Viracocha resolveu primeiro fazer o Sol, a Lua e as estrelas. Ou seja, primeiro ele criou a Luz. Ao Sol ele chamou de “Inti”, que também é um deus. É dele que os imperadores incas diziam descender. Inti é como um pássaro enorme, que segue sempre o mesmo caminho no céu, seguindo as ordens de Viracocha.

Nesse meio tempo, um dos criados de Viracocha, um dos três homens que ele havia salvado do dilúvio, foi tomado de orgulho. Foi se tornando cada vez mais desobediente e por isso o deus e os outros criados o amarraram em uma balsa e o soltaram no Tititcaca. Só então é que Viracocha refez a humanidade. Primeiro ele escreveu em uma pedra polida o nome de todas as nações que ia criar. Depois ele foi desenhando todos os homens, gordos, magros, altos, baixos, de todos os jeitos. Cada vez ele ia soprando sobre o desenho e lhes proporcionando vida e alma. Ordenou-lhes que fossem viver no mundo, iluminados pelo Sol, de dia, e a Lua e as estrelas, à noite, que fossem bons, honestos e trabalhadores. E que o adorassem até o final dos tempos. Naquela época, todos os homens falavam a mesma língua, mas depois que eles partiram da cidade que existia antes das estrelas do céu, esqueceram dela, e cada um criou o seu idioma. Por isso os homens, hoje, falam diferentes línguas.

E mais uma vez, os homens esqueceram as promessas de serem bons, trabalhadores e amarem Viracocha, ao ponto de um certo dia, quando o deus chegou a um povoado, as pessoas que lá viviam tratarem-no muito mal. Ele ficou zangado de novo. Ordenou que descesse do céu uma torrente de fogo, que queimou os campos que as pessoas cultivavam. Depois veio outra torrente, que consumiu as cabanas onde as pessoas moravam. Veio, ainda, uma terceira torrente de fogo, que consumiu as próprias pedras. Só que desta vez o deus ficou com piedade dos homens que havia criado e conteve a sua cólera. Assim, a humanidade se salvou.

Depois disso tudo, Viracocha andou até o mar. Antes de partir, falou para os homens e mulheres que o haviam seguido até lá. Disse que ia embora, mas que um dia lhes mandaria um mensageiro divino. E finalmente entrou no mar e andou em direção do horizonte, até se desfazer em espuma. Por isso o povo o chama de “Viracocha”, que quer dizer, ‘espuma do mar’.”

Os Willca e o gigante

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Na segunda parte de “A Flauta Condor”, Uturunku, um dos personagens que os Três do Sul encontram em sua trajetória através do Tahuantinsuyu, conta uma história de como apareceu o Sol no território Inca. Ela é mais ou menos assim:

Houve um tempo em que Pacha Kamac, o deus, morreu, mergulhando o mundo em uma noite sem fim. Sua mulher, Pacha Mama, e seus filhos gêmeos, os Willca saíram em busca de luz. Encontraram uma fogueira em uma caverna no alto de um monte e, quando chegaram perto, viram que ela era mantida por um gigante chamado Wakon.

Quando Wakon viu a Pacha Mama, quis namorar com ela. Para tanto, acolheu os três visitantes e, em seguida, pediu aos gêmeos que fossem buscar água em uma cumbuca. Só que ela estava rachada e esvaziava depressa, então as crianças tinham de voltar sempre, até o rio e tornar a enchê-la. Quando eles finalmente conseguiram voltar até a caverna, descobriram que o Wakon tinha matado a mãe deles, que não tinha querido se entregar aos desejos do gigante – mas como ela era uma deusa e não podia morrer de verdade, foi transformada em um monte. Mas não podia mais cuidar dos filhos, nem conversar com eles.

No início, os gêmeos ficaram muito tristes por perderem também a mãe. O Wakon ficou calado, não queria que eles soubessem que tinha sido ele quem tinha matado a Pacha Mama. Mas um pássaro que passava pela montanha, ao ver as crianças chorando, ficou com pena e contou-lhes o que tinha acontecido de fato. E por isso, os gêmeos resolveram fugir. Eles esperaram que o gigante tivesse adormecido e então amarraram seus grandes cabelos em pedras, para que demorasse a se levantar quando acordasse. Em seguida, fugiram para a floresta.

No caminho, encontraram a mãe das raposas. A criatura ficou muito penalizada quando ouviu a história das crianças que, agora, estavam sozinhas no mundo. Resolveu ajudar e os acolheu no lugar onde morava.

O Wakon, porém, ficou furioso quando despertou e descobriu que os dois irmãos tinham fugido – deve ter ficado bem zangado, também, por ter seu cabelo preso com aqueles pedregulhos enormes. Ele saiu da caverna disposto a encontrar os gêmeos e matá-los. O Wakon procurou os Willca por todas partes: no céu, na água e na terra. Perguntou ao Condor, ao Puma e à Serpente se não tinham visto os gêmeos, mentindo que queria ajudá-los. Mas os bichos não se deixaram enganar: sabiam o que ele tinha feito e sabiam que suas intenções eram as piores possíveis, por isso mentiram, dizendo que não tinham visto os gêmeos e que não sabia de nada.

Por fim, o Wakon encontrou a raposa e lhe contou a mesma história – a mesma mentira. A raposa pensou um pouco e, como é o mais esperto dos bichos, disse que sim, que tinha visto os Willca. Disse que se Wakon queria encontrá-los, o melhor era subir no alto de um monte bem alto e cantar, imitando a voz da Pacha Mama. Assim, as crianças iam ouví-lo e viriam correndo até ele.

O Wakon achou a ideia muito boa e a pôs em prática. Subiu no alto do monte mais alto das redondezas e se pôs a cantar e chamar as crianças, imitando a voz da Pacha Mama. Ficou tão entusiasmado com a sua performance – que ele achava estar perfeita – que se pôs a dançar sobre as pedras soltas do monte. Tanto pulou, tanto saracoteou, que as pedras soltas rolaram, o monte ruiu, ele caiu lá de cima e morreu.

Agora, as crianças estavam em segurança. A raposa continuou a cuidar delas, mas a verdade é que ela não era a sua mãe. Então, um dia, enquanto andavam pela floresta, os Willca e a raposa viram duas cordas dependuradas desde o céu. Imediatamente a raposa e o pássaro que havia aconselhado as crianças a fugirem da caverna do Wakon, e que estava por ali, naquele dia, disseram para os dois subirem pelas cordas até o o alto. Não deviam ter medo algum. Os Willca foram – afinal, aqueles dois animais já tinham salvado a vida deles duas vezes – e quando chegaram no final das cordas, lá em cima, descobriram que Pacha Kamac, o seu pai, estava esperando por eles, no alto do céu. Ele transformou seus filhos para tê-los sempre consigo: a Willca menina virou a Lua e o Willca menino foi transformado no Sol. Depois deu à Pacha Mama o dom de criar a vida, para que não se sentisse sozinha, lá embaixo. E como agradecimento por ter cuidado e protegido seus filhos tão bem, Pacha Kamac deu à raposa o dom de fazer sempre excelentes tocas onde podia esconder e cuidar da sua ninhada.

 

 

Rumo ao Sul

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Enquanto Pelume ia para o Norte em busca da História para Acordar o Sol, eu tirei férias  rumei para o Sul, em busca de um lugar muito especial para a primeira parte de “Os Sóis da América”: Colônia do Sacramento, lar de Nimbo, o melhor amigo do Menino das Histórias.

Colônia é um lugar especial. Ouvi falar dela, pela primeira vez, quando visitei um grande amigo, infelizmente já falecido, o bailarino Rafael Alejo. Na ocasião, ele ficou aborrecido, porque não tínhamos tempo para visitar esse lugarzinho especial onde nasceu o Uruguai, à custa de muito trabalho, guerras e tratados.

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O Rio da Prata

Localizada na margem esquerda do Rio da Prata, Colônia foi fundada no século XVII por portugueses. Na época, o território era espanhol, mas o rei de Portugal desejava expandir os territórios da coroa em terras americanas e, assim, deu ordem ao governador do Rio de Janeiro, Manuel Lobo, para que fundasse uma povoação. Lobo foi e fundou Colônia em 1680, do outro lado da margem do Prata, onde se erguia, já naquela época, Buenos Aires. Durante séculos, Colônia foi uma autêntica “pedra no sapato” da coroa espanhola e passou de mãos lusitanas à castelhas, e vice-versa, por não menos do que sete vezes.

 

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Silhueta de Buenos Aires, há 70km de Colônia do Sacramento, através do estuário

Como você pode imaginar, isso é o resumo do resumo do resumo de uma história cheia de reviravoltas, batalhas, aventuras, contrabando, tudo isso em um cenário incrível, às margens de um dos estuários mais bonitos do mundo. Hoje, você pode visitar o bairro antigo da velha Colônia do Sacramento, sob o cuidado da Unesco, já que o lugar, igual à São Miguel das Missões, é Patrimônio da Humanidade. Aliás, Colônia e São Miguel estão historicamente ligadas, não apenas pela presença jesuíta – que se faz sentir em toda a região – mas porque as duas regiões foram trocada uma pela outra, pelas coroas ibéricas em meados do século XVIII, dando origem à resistência dos guaranis que resultou na Guerra Guaranítica, em 1778. Uma História cheia de muita história.

 

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Vista parcial do farol de Colônia do Sacramento. Não fosse ele, Pelume não teria chegado à terra firme

Deixo vocês com umas poucas imagens. Ao longo do tempo, irei colocando mais algumas, que tenham a ver com a passagem de Pelume pelo Pomo da Discórdia platense, que merece, mais do que nunca, uma visita com tempo, tranquilidade e uma máquina fotográfica com o cartão totalmente zerado: vai por mim, você vai usar ele todinho!

 

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Chamando por Pelume, dentro do Rio da Prata. Será que ele vem?

O Sol e os gêmeos kamaiurá

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Na primeira parte de “A Flauta Condor” – o segundo volume da tetralogia “Os Sóis da América”, Misqui conta para Pelume como os kamaiurá relatam o aparecimento do Sol. No resumo, a narrativa é mais ou menos assim:

“Era num tempo em que não havia dia nem noite, porque não havia sol, nem lua. Era tudo uma escuridão só, porque ninguém tinha inventado o fogo ainda. Todo mundo andava tropeçando pelas raízes, os homens batiam-se uns nos outros. Todo mundo
vivia triste, ninguém cantava, ninguém caçava, ninguém dançava, ninguém ia à roça.  A única luz que havia saia de uns cupinzeiros e por isso todo mundo vivia em torno de um ninho de cupins.”

“O gêmeos Sol e Lua ainda eram gente. Chamavam-se Kuat e Iaê. Estavam sempre pensando numa maneira de fazer luz. Perguntavam daqui, perguntavam dali, e nada. Então, certa vez descobriram: o urubutsin, o urubu-rei, e seus súditos, os pássaros, tinham dia em sua aldeia. Os dois irmãos ficaram muito entusiasmados e decidiram conseguir o dia para eles também.”

“Kuat inventou um plano. Primeiro pediu para as moscas levarem um presente para a aldeia dos pássaros: era uma folha de bananeira enrolada e dentro dela havia tudo o que passarinho gosta de comer. Os pássaros ficaram muito entusiasmados quando souberam de onde tinha vindo toda aquela comida e quiseram vir para a terra, para poderem se fartar. Mas o urubutsin era desconfiado, não quis descer logo. Depois, vendo o entusiasmo dos outros, teve de ceder. Porém foi o último a sair da aldeia dos pássaros.”

“Os irmãos Kuat e Iaê mataram uma anta e se esconderam dentro dela, esperando o urubutsin chegar perto. Todo mundo sabia que os urubus comem bichos que já estão mortos. Quando a ave se aproximou, Kuat agarrou-lhe o pé. O urubutsin assustou-se e piou, e todos os outros pássaros se assustaram e fugiram, menos o jacubim e o jacu verdadeiro.”

“Então Kuat explicou ao urubu-rei que eles não queriam lhe fazer mal: queriam apenas que ele lhes desse o dia. A grande ave concordou e mandou o jacubim ir buscar. Mas o pássaro trouxe um aravirí, um enfeite de braço, feito com as penas de uma arara azul, que brilhava
como se tivesse luz própria. Porém logo ficou tudo escuro de novo, porque o aravirí de arara azul não era o dia.”

“O urubutsin mandou o jacubim voltar à aldeia e trazer o dia de verdade, mas naquela segunda vez a ave trouxe um penacho amarelo e brilhante de arara canindé. Quando ele ia chegando, Iaê já foi avisando que aquilo não era dia nem coisa nenhuma. Dito e feito: quando o jacubim pousou, a luz apagou. O jacubim ainda fez duas viagens: numa, trouxe penas de papagaio. Na outra, um penacho de cabeça e uma braçadeira de penas de arara vermelha. E sempre que ele pousava, a luz das penas se apagava, porque aquilo não era o dia verdadeiro.”

“Finalmente o urubutsin mandou o jacu buscar o dia. O bicho foi e voltou: vinha com um penacho na cabeça, brincos, um enfeite no braço e outro nas pernas. Era tudo feito de penas de arara vermelha. Então Iaê falou para Kuat: ‘este é o dia de verdade’, porque as penas eram somente de arara vermelha, sem nenhuma outra cor. E de fato, tudo ficou
iluminado quando ele pousou. O dia tinha chegado!”

“Depois que o jacu trouxe o dia nas penas da arara vermelha, o urubutsin explicou para os gêmeos: o dia raiava pela manhã. À tarde, ele ia embora, mas não era para ninguém pensar que os pássaros o tivessem roubado! É que depois do dia, vinha a noite. E depois da noite,
vinha o dia. E isso ia repetir-se sempre e sempre.”

“Quando a ave terminou de explicar, Kuat enfeitou ela: raspou sua cabeça, pintou-a com urucum, que é uma tinta vermelha feita de sementes, e amarrou uma linha branca ao redor. ‘Agora, você vai ser sempre assim’, disse Kuat. Desde então há dia na terra e sempre que a tribo de Kuat e Iaê caçava um bicho grande, deixava ele num lugar bem visível. O urubutsin via o bicho lá do céu, e descia para comer.”

E foi assim que o Sol apareceu, para os kamaiurá.

A terceira história do Sol

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O que um peixe está fazendo em uma história sobre o Sol? Simples: em seu caminho para o Norte, em busca de sua história, Pelume escuta, em pleno El Chaco, uma divertida história sobre o sol. Contam os índios matocos, no noroeste argentino, que logo depois da Criação o Sol não era tão brilhante quanto hoje. Foi então que ele percebeu que os homens que viviam na Terra gostavam de perseguir um peixe de escamas douradas, pescando-os com lanças e flechas. O Sol teve uma ideia: transformou-se em um grande dourado.

Imediatamente, os índios quiseram pesca-lo e passaram a persegui-lo, cravejando-o com flechas. Como o Sol era invulnerável, as flechas ficavam cravadas no couro dourado, sem ferí-lo de fato. Por fim, quando achou que tinha tudo o que queria, o Sol voltou ao céu e transformou cada flechas num raio de sua coroa. Foi assim ele conquistou a aparência que tem hoje.