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Quando retorna ao mundo andino, no início de “O Coração de Jade” Pelume encontra Furufuhué transformado em uma bela onça parda, um puma, chamado Chuquichinchai. Durante a conversa (bastante amarga, diga-se de passagem) entre os dois amigos, surgem algumas informações sobre como algumas tribos do sul do continente americano imaginam ser, ou ter surgido, o Sol. Um dos citados é o povo Carajá, e o seu mito Rarãsesã.

Os carajás acreditavam que seu primeiro ancestral tivesse vindo de um mundo subterrâneo, origem de todos os carajás. Essa ideia de que os homens teriam vindo do interior da terra (uma caverna ou um buraco que levaria a um mundo interior) é bastante comum. Os kaigangues, aqui do Rio Grande do Sul, acreditavam em um mito parecido, alguns mitos incas diziam que os homens teriam vindo de dentro de uma caverna, assim como diziam ter acontecido com os mexica, os astecas. E também, algumas tribos do sudoeste norte-americano contavam histórias assim, como os povos que viviam na região do Grand Canyon. Daí, talvez, a ideia de que o planeta seja oco e que há várias entradas para esse mundo interior distribuídas por aí, inclusive no Polo Norte, que foi uma ideia que circulou muito nos meios esotéricos há alguns anos.

Diziam os carajás, que um ancestral seu conseguiu sair de um buraco, certa feita, passando do mundo subterrâneo para o exterior, onde, então se deparou com tudo – ou quase tudo – o que existe. A floresta e o rio existiam, mas não existiam muitos animais. Tampouco o sol ou a lua e, portanto, o mundo estava mergulhando numa profunda escuridão, onde apenas as estrelas brilhavam nas profundezas da noite mítica. O ancestral teve uma ideia: em algumas histórias ele chamou Rarãsesã, que como os carajás chamam o urubu-rei em sua língua. Em outras versões, mais antigas, o ancestral deitou-se no chão e fingiu-se de morto. Em todo o caso, Rarãsesã apareceu, ao cabo de algum tempo e o ancestral o agarrou, porque sabia que o urubu-rei tinha o Sol com ele (mais ou menos como os gêmos míticos dos kamaiurás, Kuat e Iaê. Veja o post, AQUI). Na versão mais antiga, o ancestral arranca a cabeça do nobre animal, e com isso, conquista o Sol. No mito que usei de referência, e que é considerado mais atual, o ancestral consegue que Rarãsesã lhe dê o Sol, que, assim como a Lua, é um enfeite de sua cabeça pelada. Por isso, Furufuhué, transformado em Chuquichinchai, diz à Pelume que “o Sol é um enfeite na cabeça de um deus chamado Rarãsesã”. Eu gostaria de ter dado um jeito de colocar todo mundo na jornada de Pelume, mas não foi possível. Por isso, deixo aqui a referência ao mito desse importante povo sul-americano.

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