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Em sua viagem através do mundo andino, Pelume se depara com o mito da Criação através dos olhos dos Incas. E o que ele ouve em um sonho é mais ou menos o que os habitantes do Tahuantinsuyu acreditavam ter acontecido no início de tudo:

“Quando ainda não havia nada, havia Viracocha, que era um deus. Ele criou o céu, o mar e a terra, tudo o que há, na mais profunda escuridão, porque para aqueles tempos não havia, ainda, nem Sol, nem Lua. Ele não sentia falta da luz, podia fazer tudo no escuro mesmo. Assim, ele tentou povoar a terra pela primeira vez: esculpiu gigantes de pedra, que eram muito poderosos e muito mais altos do que ele. Mas ficou com receio de dar vida à criaturas muito maiores do que ele.Então os destruiu e fez outras criaturas, seres do tamanho dele. Foi assim que Viracocha criou os homens.

Depois que eles tinham sido criados, Viracocha os reuniu e lhes disse que fossem honestos, bons e trabalhadores, e que o adorassem até o final dos tempos, coisas com as quais todo mundo concordou. Mas foi só ele virar as costas para todos esquecessem a promessa. Viracocha ficou furioso e transformou os devassos em pedras, os pecadores em animais e jogou os demais em fendas profundas. Depois fez acontecer o dilúvio, que cobriu até as mais altas montanhas com água. Salvou apenas três homens, com os quais decidiu refazer a humanidade.

Depois que as águas do dilúvio secaram, Viracocha e seus três criados viajaram até o Tititcaca, que é o lago mais alto do mundo. Dizem os povos incas que lá já existia uma cidade e foi para lá que o deus foi para recriar o homem. Mas desta vez, que era a terceira Criação, Viracocha resolveu primeiro fazer o Sol, a Lua e as estrelas. Ou seja, primeiro ele criou a Luz. Ao Sol ele chamou de “Inti”, que também é um deus. É dele que os imperadores incas diziam descender. Inti é como um pássaro enorme, que segue sempre o mesmo caminho no céu, seguindo as ordens de Viracocha.

Nesse meio tempo, um dos criados de Viracocha, um dos três homens que ele havia salvado do dilúvio, foi tomado de orgulho. Foi se tornando cada vez mais desobediente e por isso o deus e os outros criados o amarraram em uma balsa e o soltaram no Tititcaca. Só então é que Viracocha refez a humanidade. Primeiro ele escreveu em uma pedra polida o nome de todas as nações que ia criar. Depois ele foi desenhando todos os homens, gordos, magros, altos, baixos, de todos os jeitos. Cada vez ele ia soprando sobre o desenho e lhes proporcionando vida e alma. Ordenou-lhes que fossem viver no mundo, iluminados pelo Sol, de dia, e a Lua e as estrelas, à noite, que fossem bons, honestos e trabalhadores. E que o adorassem até o final dos tempos. Naquela época, todos os homens falavam a mesma língua, mas depois que eles partiram da cidade que existia antes das estrelas do céu, esqueceram dela, e cada um criou o seu idioma. Por isso os homens, hoje, falam diferentes línguas.

E mais uma vez, os homens esqueceram as promessas de serem bons, trabalhadores e amarem Viracocha, ao ponto de um certo dia, quando o deus chegou a um povoado, as pessoas que lá viviam tratarem-no muito mal. Ele ficou zangado de novo. Ordenou que descesse do céu uma torrente de fogo, que queimou os campos que as pessoas cultivavam. Depois veio outra torrente, que consumiu as cabanas onde as pessoas moravam. Veio, ainda, uma terceira torrente de fogo, que consumiu as próprias pedras. Só que desta vez o deus ficou com piedade dos homens que havia criado e conteve a sua cólera. Assim, a humanidade se salvou.

Depois disso tudo, Viracocha andou até o mar. Antes de partir, falou para os homens e mulheres que o haviam seguido até lá. Disse que ia embora, mas que um dia lhes mandaria um mensageiro divino. E finalmente entrou no mar e andou em direção do horizonte, até se desfazer em espuma. Por isso o povo o chama de “Viracocha”, que quer dizer, ‘espuma do mar’.”

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