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Na segunda parte de “A Flauta Condor”, Uturunku, um dos personagens que os Três do Sul encontram em sua trajetória através do Tahuantinsuyu, conta uma história de como apareceu o Sol no território Inca. Ela é mais ou menos assim:

Houve um tempo em que Pacha Kamac, o deus, morreu, mergulhando o mundo em uma noite sem fim. Sua mulher, Pacha Mama, e seus filhos gêmeos, os Willca saíram em busca de luz. Encontraram uma fogueira em uma caverna no alto de um monte e, quando chegaram perto, viram que ela era mantida por um gigante chamado Wakon.

Quando Wakon viu a Pacha Mama, quis namorar com ela. Para tanto, acolheu os três visitantes e, em seguida, pediu aos gêmeos que fossem buscar água em uma cumbuca. Só que ela estava rachada e esvaziava depressa, então as crianças tinham de voltar sempre, até o rio e tornar a enchê-la. Quando eles finalmente conseguiram voltar até a caverna, descobriram que o Wakon tinha matado a mãe deles, que não tinha querido se entregar aos desejos do gigante – mas como ela era uma deusa e não podia morrer de verdade, foi transformada em um monte. Mas não podia mais cuidar dos filhos, nem conversar com eles.

No início, os gêmeos ficaram muito tristes por perderem também a mãe. O Wakon ficou calado, não queria que eles soubessem que tinha sido ele quem tinha matado a Pacha Mama. Mas um pássaro que passava pela montanha, ao ver as crianças chorando, ficou com pena e contou-lhes o que tinha acontecido de fato. E por isso, os gêmeos resolveram fugir. Eles esperaram que o gigante tivesse adormecido e então amarraram seus grandes cabelos em pedras, para que demorasse a se levantar quando acordasse. Em seguida, fugiram para a floresta.

No caminho, encontraram a mãe das raposas. A criatura ficou muito penalizada quando ouviu a história das crianças que, agora, estavam sozinhas no mundo. Resolveu ajudar e os acolheu no lugar onde morava.

O Wakon, porém, ficou furioso quando despertou e descobriu que os dois irmãos tinham fugido – deve ter ficado bem zangado, também, por ter seu cabelo preso com aqueles pedregulhos enormes. Ele saiu da caverna disposto a encontrar os gêmeos e matá-los. O Wakon procurou os Willca por todas partes: no céu, na água e na terra. Perguntou ao Condor, ao Puma e à Serpente se não tinham visto os gêmeos, mentindo que queria ajudá-los. Mas os bichos não se deixaram enganar: sabiam o que ele tinha feito e sabiam que suas intenções eram as piores possíveis, por isso mentiram, dizendo que não tinham visto os gêmeos e que não sabia de nada.

Por fim, o Wakon encontrou a raposa e lhe contou a mesma história – a mesma mentira. A raposa pensou um pouco e, como é o mais esperto dos bichos, disse que sim, que tinha visto os Willca. Disse que se Wakon queria encontrá-los, o melhor era subir no alto de um monte bem alto e cantar, imitando a voz da Pacha Mama. Assim, as crianças iam ouví-lo e viriam correndo até ele.

O Wakon achou a ideia muito boa e a pôs em prática. Subiu no alto do monte mais alto das redondezas e se pôs a cantar e chamar as crianças, imitando a voz da Pacha Mama. Ficou tão entusiasmado com a sua performance – que ele achava estar perfeita – que se pôs a dançar sobre as pedras soltas do monte. Tanto pulou, tanto saracoteou, que as pedras soltas rolaram, o monte ruiu, ele caiu lá de cima e morreu.

Agora, as crianças estavam em segurança. A raposa continuou a cuidar delas, mas a verdade é que ela não era a sua mãe. Então, um dia, enquanto andavam pela floresta, os Willca e a raposa viram duas cordas dependuradas desde o céu. Imediatamente a raposa e o pássaro que havia aconselhado as crianças a fugirem da caverna do Wakon, e que estava por ali, naquele dia, disseram para os dois subirem pelas cordas até o o alto. Não deviam ter medo algum. Os Willca foram – afinal, aqueles dois animais já tinham salvado a vida deles duas vezes – e quando chegaram no final das cordas, lá em cima, descobriram que Pacha Kamac, o seu pai, estava esperando por eles, no alto do céu. Ele transformou seus filhos para tê-los sempre consigo: a Willca menina virou a Lua e o Willca menino foi transformado no Sol. Depois deu à Pacha Mama o dom de criar a vida, para que não se sentisse sozinha, lá embaixo. E como agradecimento por ter cuidado e protegido seus filhos tão bem, Pacha Kamac deu à raposa o dom de fazer sempre excelentes tocas onde podia esconder e cuidar da sua ninhada.

 

 

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