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urubu-rei

Na primeira parte de “A Flauta Condor” – o segundo volume da tetralogia “Os Sóis da América”, Misqui conta para Pelume como os kamaiurá relatam o aparecimento do Sol. No resumo, a narrativa é mais ou menos assim:

“Era num tempo em que não havia dia nem noite, porque não havia sol, nem lua. Era tudo uma escuridão só, porque ninguém tinha inventado o fogo ainda. Todo mundo andava tropeçando pelas raízes, os homens batiam-se uns nos outros. Todo mundo
vivia triste, ninguém cantava, ninguém caçava, ninguém dançava, ninguém ia à roça.  A única luz que havia saia de uns cupinzeiros e por isso todo mundo vivia em torno de um ninho de cupins.”

“O gêmeos Sol e Lua ainda eram gente. Chamavam-se Kuat e Iaê. Estavam sempre pensando numa maneira de fazer luz. Perguntavam daqui, perguntavam dali, e nada. Então, certa vez descobriram: o urubutsin, o urubu-rei, e seus súditos, os pássaros, tinham dia em sua aldeia. Os dois irmãos ficaram muito entusiasmados e decidiram conseguir o dia para eles também.”

“Kuat inventou um plano. Primeiro pediu para as moscas levarem um presente para a aldeia dos pássaros: era uma folha de bananeira enrolada e dentro dela havia tudo o que passarinho gosta de comer. Os pássaros ficaram muito entusiasmados quando souberam de onde tinha vindo toda aquela comida e quiseram vir para a terra, para poderem se fartar. Mas o urubutsin era desconfiado, não quis descer logo. Depois, vendo o entusiasmo dos outros, teve de ceder. Porém foi o último a sair da aldeia dos pássaros.”

“Os irmãos Kuat e Iaê mataram uma anta e se esconderam dentro dela, esperando o urubutsin chegar perto. Todo mundo sabia que os urubus comem bichos que já estão mortos. Quando a ave se aproximou, Kuat agarrou-lhe o pé. O urubutsin assustou-se e piou, e todos os outros pássaros se assustaram e fugiram, menos o jacubim e o jacu verdadeiro.”

“Então Kuat explicou ao urubu-rei que eles não queriam lhe fazer mal: queriam apenas que ele lhes desse o dia. A grande ave concordou e mandou o jacubim ir buscar. Mas o pássaro trouxe um aravirí, um enfeite de braço, feito com as penas de uma arara azul, que brilhava
como se tivesse luz própria. Porém logo ficou tudo escuro de novo, porque o aravirí de arara azul não era o dia.”

“O urubutsin mandou o jacubim voltar à aldeia e trazer o dia de verdade, mas naquela segunda vez a ave trouxe um penacho amarelo e brilhante de arara canindé. Quando ele ia chegando, Iaê já foi avisando que aquilo não era dia nem coisa nenhuma. Dito e feito: quando o jacubim pousou, a luz apagou. O jacubim ainda fez duas viagens: numa, trouxe penas de papagaio. Na outra, um penacho de cabeça e uma braçadeira de penas de arara vermelha. E sempre que ele pousava, a luz das penas se apagava, porque aquilo não era o dia verdadeiro.”

“Finalmente o urubutsin mandou o jacu buscar o dia. O bicho foi e voltou: vinha com um penacho na cabeça, brincos, um enfeite no braço e outro nas pernas. Era tudo feito de penas de arara vermelha. Então Iaê falou para Kuat: ‘este é o dia de verdade’, porque as penas eram somente de arara vermelha, sem nenhuma outra cor. E de fato, tudo ficou
iluminado quando ele pousou. O dia tinha chegado!”

“Depois que o jacu trouxe o dia nas penas da arara vermelha, o urubutsin explicou para os gêmeos: o dia raiava pela manhã. À tarde, ele ia embora, mas não era para ninguém pensar que os pássaros o tivessem roubado! É que depois do dia, vinha a noite. E depois da noite,
vinha o dia. E isso ia repetir-se sempre e sempre.”

“Quando a ave terminou de explicar, Kuat enfeitou ela: raspou sua cabeça, pintou-a com urucum, que é uma tinta vermelha feita de sementes, e amarrou uma linha branca ao redor. ‘Agora, você vai ser sempre assim’, disse Kuat. Desde então há dia na terra e sempre que a tribo de Kuat e Iaê caçava um bicho grande, deixava ele num lugar bem visível. O urubutsin via o bicho lá do céu, e descia para comer.”

E foi assim que o Sol apareceu, para os kamaiurá.

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