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Sunrise in Laguna de los tres by Dario Varricchio

Imagem do blog As crônicas do Lynx

Com este personagem, abrimos uma série de contos sobre como os povos americanos imaginavam que tinha acontecido a criação do Sol. Muito frequentemente, a criação do Sol vem da criação do universo, como é o caso do mito à seguir. A primeira história sobre o Sol que Pelume ouve em sua jornada é a que é contada por Huilén, a Velha das Palavras, que vive na mitológica Elelín – de onde vem Mísqui. É um mito tehuelche, povo que habitava a Patagônia. Alguém aí poderia dizer que Pelume é um tehuelche, mas não há indícios sobre isso.

Ah, por certo, antes de começar a ler: o nome do sol que aparece no texto (extraído de “O Nalladigua”), é grafado como “Xáleshen”. Contudo, você também pode já ter ouvido falar em “Kéenyenken”, sobretudo se você conhece a obra “Seres Mitológicos Argentinos”, de Adolfo Colombres. Em princípio, trata-se do mesmo personagem.

Diz Huilén, a Velha das Palavras:

“Contam os tehuelches que há muito, muito tempo atrás não havia nada: terra, mar, sol, lua, nada disso existia. Tudo eram trevas. Mas no meio delas vivia Kóoch.  Ele sempre vivera sozinho e até então nunca precisara de nada nem de ninguém, mas em certa ocasião sentiu-se tão sozinho que entristeceu. Chorou, chorou, chorou. Suas lágrimas foram tantas e tantas que delas se formou o mar – e é por isso que ele é salgado como as lágrimas.

Era tanto mar, e tanto chorava Kóoch, que por pouco a água não cobriu o próprio Kóoch afogando de uma vez a ele e sua tristeza. Kóoch parou de chorar e suspirou – e seu suspiro foi o primeiro vento que houve. Assim, o mar e o vento foram as primeiras coisas que surgiram sobre a terra.

O vento que era o suspiro de Kóoch era poderoso e abriu caminho na névoa-treva, agitou o mar, fez aparecerem as ondas. Tudo aquilo era muito estranho – mar, névoa, vento, onda – e Kóoch ficou curioso para ver o que eram aquelas coisas. Por isso ele se afastou um pouco, pensando que talvez desde longe visse melhor. Ainda mais negras se fizeram as trevas. As ondas quebravam, o vento soprava suas canções, a névoa inventava o silêncio, mas nada se podia ver, só ouvir. Assim, Kóoch fez um gesto com a mão e do giro dela surgiu uma chispa dourada, poderosa que se transformou no Sol, Xáleshen. Xáleshen levantou-se sobre o mar e Kóoch pôde ver a imensidão magnífica que nascera de suas lágrimas, a brisa que desenhava espuma sobre elas e afastava a névoa. O Sol juntou a névoa em forma de nuvens que passaram a vagar pelo céu, inventando a sombra sobre as águas. O vento brincava de esculpir nuvens e de empurrá-las de um lado para o outro. Às vezes elas vagavam docemente, mas às vezes ele as empurrava com força. Então as nuvens se chocavam com estrondos de trovões e relampagueavam furiosas. Mas o vento não se importava.

Tudo aquilo pareceu tão belo que Kóoch resolveu continuar com a invenção do mundo. Tirou da água uma ilha muito grande e pôs sobre ela animais de todos os tipos que você puder imaginar, plantas que você nem conhece e coisas que ninguém nunca sonhara antes dele. O vento, o Sol e as nuvens vieram espiar aquilo que Kóoch estava fazendo e acharam tão bonita a invenção que resolveram ajudar: o Sol iluminava e aquecia a terra, as nuvens faziam chover e o vento se comprometeu a não destroçar tudo com seu sopro endiabrado. Acariciava as folhas das plantas, levava as aves em seus braços e aproveitava as altas montanhas da ilha para compor canções alegres e tristes ao mesmo tempo.

Kóoch ficou muito satisfeito com o resultado de tudo aquilo, e decidiu retirar-se para além do mar. Foi-se para além do horizonte e nunca mais voltou.”

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