A Reinvenção do Imaginário

No último dia 30 fui assistir à abertura da exposição “Visões Fantásticas da Bandeira do Elefante e da Arara”, um compêndio de ilustrações originais realizadas por diferentes artistas, baseados na série de histórias de Christopher Kastendsmidt, que figuram em seu livro “A Bandeira do Elefante e da Arara”, publicado pela Devir. A exposição acontece até o dia 26 de outubro, na Galeria Hipotética, na Visconde do Rio Branco, 431, bairro Floresta, em Porto Alegre.

A minha primeira reação foi de encantamento: muitas das ilustrações eu já conhecia, porque sou leitora e consumidora da maioria das mídias que envolvem o projeto de Kastesmidt, e que vão do texto ao desenho animado, passando por história em quadrinhos, games e jogo de tabuleiro. Mas havia várias obras que tive a oportunidade de conhecer, a parte de que é sempre um prazer poder admirar o original, em seu tamanho e proporções originais, com todos os detalhes que às vezes passam desapercebidos depois da edição final do trabalho. Há imagens que foram utilizadas em capas de livros, quadrinhos, protótipos de jogos e até alguns frames de um futuro e promissor DA. Quem acompanha as aventuras de Gerard e Oludara está ansioso para ver o resultado final.

Depois, fui assistir à palestra que reunia quatro dos ilustradores (ao todo são onze artistas envolvidos na mostra). Todos jovens, com trajetórias que tangenciam, quase sempre, a Publicidade, todos tão apaixonados pelo que fazem que não se importam se inventar rotas alternativas para seus trabalhos.

E aí, enquanto uma tela exibia alguns dos trabalhos em exposição, e aquele grupo cheio de bom-humor e energia falava sobre os caminhos que percorreram até esse momento, me dei conta da enorme revolução que essa geração está promovendo no imaginário brasileiro.

O caso é que os duendes de nossas matas tem pouca representação imagética. Originalmente “retratados” pelos viajantes dos séculos posteriores à chegada dos europeus às terras tupiniquins, os desenhos de monstros e gênios alimentados pela imaginação popular são de pouca ajuda para uma geração que cresceu diante das telas de jogos eletrônicos e blockbusters cinematográficos. Outros, que fizeram parte da infância da minha geração, quarenta anos atrás, infantilizaram de tal forma as assombrações brasileiras, que não é de se espantar que haja pessoas que não se sintam entusiasmadas diante de um livro de fantasia ou terror brasileiro, sobretudo se o autor, sendo nacional, se valeu do imaginário popular para escrever sua ficção. Quem têm medo Saci, se ele não passa de um menino esperto e divertido, que só “apronta” traquinagens de moleque? Quem vai ter medo de uma Cuca pesada e engraçada, cujas maldades e desejos são mais ingênuos que a boa-vontade de um herói de qualquer filme infantil da atualidade? Quem vai acreditar em Iara, quando ela foi transformada de beldade devoradora de homens em uma amiga que, apesar do necessário o discurso ecológico de que esse personagem foi revestido, tem dificuldades bem maiores e prementes do que seduzir viajantes desavisados?

Após a passagem de “O Sítio do Pica-Pau Amarelo” e “O Castelo Ra-tim-bum” pela TV aberta, o imaginário brasileiro mergulhou em um limbo infantilizado e simplório, uma espécie de areia movediça que mina o impacto desses personagens sobre o destinatário dessas histórias, com as raras e sempre bem-vindas exceções que comprovam a regra, como a obra de Humberto Avelar na série de curtas animados “Juro que vi”, onde a infantilização das assombrações está revestida de tamanha qualidade artística e narrativa que a gente se pergunta “por onde andava esse tesouro que não fez parte da minha infância?”.

Dai que fiquei impactada, não apenas pela qualidade dos trabalhos expostos na Hipotética, mas pelo imenso trabalho de pesquisa que essa geração de artistas está realizado, e pelo enorme, ainda que divertido, exercício imaginativo que envolve pegar descrições textuais, dar-lhes forma, cor, volume, acrescentar nisso o discurso próprio do artista, seu traço, sua identidade, suprir com pura criação as “pontas soltas” que a imaginação popular não se preocupou em completar mas que ele, artista plástico, precisa resolver a fim dar uma forma à sua criação, e, por fim, adequar esse trabalho todo à linguagem de sua ilustração, fugindo da infantilização para devolver às criaturas do imaginário aquilo que nunca deveriam ter perdido: a magia, o mistério, as sombras que revestem as profundezas do medo e do maravilhamento de quem se aventura pelo território sempre movediço do Fantástico, em todas as suas nacionalidades e dimensões.

Os onze artistas da exposição não são os únicos. Felizmente há uma enorme gama de ilustradores e criadores redescobrindo um Brasil que foi substituído por outros reinos mágicos em nosso imaginário  o que acarreta, sempre, o complicado raciocínio da identidade cultural de um país feito de inúmeras culturas, dado ao deboche e à iconoclastia, que é confrontado por sua própria História, passada ou recente, e com todos os erros que gostaríamos de esquecer. Não é divertido ter como protagonistas índios, quando sabemos inconscientemente ou não, que houve um genocídio dos povos indígenas, crimes que ainda acontecem em nosso país; é complicado ter um protagonista afro, quando nos deparamos, ainda, com o racismo subterrâneo e sempre latente. Realidades como essas nos desafiam cotidianamente e nos perguntam corriqueiramente, afinal, quem somos, o que somos e o que queremos ser?

Mesmo assim – ou talvez por isso mesmo – é uma alegria poder assistir a esse movimento cheio de vigor e coragem, esse desejo de explorar um mundo pouco visitado até aqui, mas cada vez mais explorado por artistas de todas as áreas, e colocar seu nome na roda viva do Tempo. E é um privilégio poder fazer parte disso tudo, gota de água que ajuda a recriar e resgatar o oceano do imaginário brasileiro em todos nós.

Você pode visitar o link da exposição “Visões Fantásticas da Bandeira do Elefante e da Arara”, clicando na imagem abaixo. Vale a pena conferir.

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Sarau do Rio

No último domingo, dia 24, participei de mais uma feira popular. Dessa vez foi o Sarau do Rio, em São Leopoldo.

O lugar é muito bonito, na Rua da Praia, que fica na margem do Rio do Sinos. Tem recantos muito bucólicos e a feira em si mesma é uma oportunidade para conhecer novas pessoas e mudar um pouco de ares. É realmente uma alegria poder passar o dia ao ar-livre, para variar um pouco, aproveitando o sol e o vento.

Deixo vocês com algumas imagens de um dia que começou cinzento e terminou absolutamente ensolarado, sem nenhuma nuvem no céu. Uma tarde de livro!

Pelume na Feira Pólen

No último dia 05, estive participando de uma feira, aqui em Novo Hamburgo, a Feira Pólen. Foi um momento muito colorido e divertido, um sábado cheio de sol e flores, excelente para trocar uma ideia e conhecer novos amigos. E foi o que aconteceu: a nova edição de “O Nalladigua” se fez presente no evento, e já foi comercializada. Uma alegria poder ver Pelume, Misqui, Nimbó e Furufuhué partindo para ser reinventado pela imaginação de novas leitoras. Um autêntico prazer!

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Novidade!

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Oi pessoal!

Estou produzindo uma nova edição de “Os Sóis da América“. Serão os dois primeiros livros (“O Nalladigua” e “A Flauta Condor“) em apenas um volume, através do www.clubedeautores.com.br, um site de publicação sob demanda com o qual venho trabalhando há alguns anos.

O diferencial do livro será que estarei oferecendo a primeira metade da história de Pelume em um só volume, por um preço que ficará um pouco mais alto do que a metade do valor que você investiria ao comprar os volumes em separado. Em vez dos R$ 54,00 reais que você pagaria no meu site (valor que resulta da venda dos dois primeiros títulos), o comprador poderá adquirir o seu livro por R$ 37,94 + o valor do frete. Mas, atenção, esse valor é apenas para este volume, que é em papel e que você poderá adquirir em sites de lojas que trabalham com o Clube de Autores. E além disso, ficando de olho no site do Clube de Autores, você ainda conseguirá comprar seus livros dentro das inúmeras promoções que eles oferecem periodicamente com bons descontos. É só estar ligado lá, ou acompanhar as notícias da facebook.com/soisdaamerica, – a página do livro no Facebook. Ou nos seguir por aqui, a página oficial da saga que leva você a uma aventura sem igual pelo Velho Norte: o continente americano.

 

Na beira do rio

sao leopoldoOi pessoal! No próximo dia 16, acontece o 4º Sarau do Rio, na Rua da Praia, em São Leopoldo. O evento será das 10h às 18h e estarei lá com o meu material independente – incluindo os últimos exemplares do conjunto completo e original (com ilustrações de Fabiana Girotto Boff) de “Os Sóis da América“. Querendo conhecer mais do meu trabalho, adquirir o seu exemplar, completar a sua coleção, bater um papo ou pegar um autógrafo, passa lá! Será um prazer.

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Oi pessoal!

Tem uma novidade superbacana no site da revista on-line Trasgo: um prelúdio de toda a aventura d’Os Sóis da América. Trata-se do conto “A Caverna de Gelo” onde se descobre como Pelume encontrou o Nalladigua (ou terá sido ao contrário?). Acompanhe a aventura deste pequeno-grande viajante do Velho Norte, clicando AQUI e, de quebra, conheça mais uma assombração de deixar os cabelos em pé, vinda especialmente das profundezas da Patagônia para assombrar o Menino-das-Histórias.

E depois, tem uma entrevista com esta que vos fala. Venha se divertir com uma aventura pra lá de gelada!

Um abraço!

Chegou!

E aí, tudo bem?

Já está disponível o conto “A Caverna de Gelo“, um prólogo às aventuras de Pelume. O relato faz parte do elenco de trabalhos da Trasgo nº 14 deste mês, e pode ser lido, gratuitamente, clicando AQUI.

Não deixe de conferir essas aventura gelada, em um cenário muito diferente. Vai lá descobrir como Pelume encontrou o Nalladigua (ou será ao contrário?).

Abraços!

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A batalha (extrato)

 “Súbito, ele gelou de susto.
    Era o invunche!
   A criatura saltou para Pelume com um grunhido, as garras esticadas na direção de seu pescoço. Felizmente a terceira perna do arauto tropeçou no barco e o monstro caiu longe do menino, que agarrou o Nalladigua, pronto a usá-lo para se defender. No último momento, entretanto, titubeou. O invunche era medonho, mas bastou olhar seus olhos para Pelume compreender que ele um dia fora humano. Em seu coração acendeu-se uma chama de piedade. Foi Misqui quem saltou sobre a criatura e a jogou na água. De qualquer forma, era tarde: tinham sido descobertos!
   De algum lugar trás deles, ouviram aquele assobio maldito e medonho que tanto medo lhes havia causado no Pampa aberto. Os itinga relincharam horrorizados e, por um instante, cada um quis correr em uma direção. O grupo se deteve. O machí surgiu, montando aquela coisa que comandava, velha, horrenda, viscosa. O piguchén avançou. Tinha umas asas disformes como que de morcego, que ajudavam a prolongar seu salto. Com um golpe da garra afiada, o monstro destroçou os arreios de um dos itinga que puxava o barco da frente e cortou o pescoço do nobre animal, que caiu com um relincho de agonia.
   Saídos do susto, Abapera e Nhanderiquei se moveram em direção ao piguchén. A flecha do índio zuniu certeira, dourada, e cravou-se perto do olho saltado da criatura, que ganiu, surpresa. O machí atacou. O feiticeiro movia-se de maneira extravagante e sussurrava, sibilando sem parar. Quando menos esperava, Pelume sentiu uma ardência no braço esquerdo. Olhou, surpreso: um vergão desenhava-se ali, como se tivesse levado uma chicotada. Esse era um dos piores poderes do machí: ferir seu inimigo à distância!
O cavalo da canoa da frente, que agora estava sozinho, tentava escapar rumo ao centro do rio, mas as águas agitadas pelo poder do feiticeiro ameaçavam tragá-lo. Ele sobreviveria à súbita fúria das águas, com certeza, mas Nimbó não. Por isso, Nhanderiquei saltou sobre o animal, arrebentou as rédeas de couro com as mãos e empunhou seu arco e flecha.
– Pule para o barco de Abapera! – ordenou o primogênito com voz possante para o guarani. Quando o barco, arrastado pela corrente, passou perto de Pelume e Misqui, o garoto saltou para ele sem hesitar. A canoa, cheia de gente, oscilou perigosamente, ameaçou adernar, depois endireitou-se, mas estava tão carregada que as ondas entravam facilmente pela proa. Abapera fez a única coisa que lhe restava fazer. Atirou as rédeas dos itinga nas mãos de Nimbó, passou a mão na cabeça de Pelume e saltou para as macegas da margem.
– Vão embora! Para o norte! Agora! – ordenou, impedindo uma investida mais ousada do piguchén e do machí, cuja face, horrenda, desfigurada pelo corte do anzol de Pelume, rosnava encantamentos. O golpe da lança do gaúcho resvalou no pelo curto que cobria o bicho monstruoso e a criatura voltou-se para ele arreganhando os dentes. Com uma bocada estraçalhou a lança e Abapera ficou apenas com um facão para defender-se. Nhanderiquei tentou acertar o machí pelo outro lado, mas neste momento uma sombra saltou sobre ele. Era o invunche!
– Seu aprendiz de feiticeiro! Passe-me o corno dourado! – vociferou o machí, saltando do dorso do piguchén e correndo na direção do barco de Pelume.
– Não tenho nada que você possa querer! – gritou o menino. No salto seguinte, o machí estava dentro do barco. Um gesto seu e a água cresceu feito enchente.
– Não voltarei a pedir! – berrou o bruxo e um arranhão ainda mais profundo cortou o peito do menino. Pelume cruzou o Nalladigua diante de si, sem pensar, e a madeira frágil de alguma maneira funcionou como escudo. O arranhão deteve-se pela metade e o homem grunhiu. Neste momento, uma onda maior bateu contra o barco e arremessou Pelume aos pés de Nimbó, que deu rédea aos cavalos. O tranco do barco fez com que o machí se desequilibrasse e caísse no rio revolto. O feiticeiro ainda conseguiu agarrar a ponta do Nalladigua, na queda, e por pouco não o levou consigo, mas Pelume o puxou do outro lado, com força. Então as águas embranqueceram de súbito e o corpo do machí foi jogado contra o piguchén, que continuava enfrentando Abapera junto ao rio. Nimbó não esperou para ver o que ia acontecer: gritou para os itinga e ganhou a corrente do rio rumo ao norte, mergulhando no anoitecer.
Tinham conseguido avançar até uma curva e a noite crescente ocultava-lhes o local do embate. Inesperadamente o céu tingiu-se como o alvorecer, e por um instante pareceu que o Sol se acendera em pleno campo. Ouviram uma grande explosão e um grito
– O que foi isso? O que aconteceu? – perguntou Misqui, temerosa.
– Vamos voltar! Pode ser Nhanderiquei! Pode estar pedindo ajuda! – gritou Pelume.
Nimbó freou os itinga com força. Olhou para trás a tempo de ver a luz dourada se apagar.
– Ayú! Era Nhanderiquei! – gemeu o guarani.
Quis voltar. Chegou a dar a volta. Mas se deteve. Um assobio frio e perverso varreu o campo seguido de um silêncio de morte.”

O Nalladigua – Os Sóis da América – vol.1 – Simone Saueressig